Webcurrículo: a internet e educação integradas

15 Dezembro 2008

s5002735Mais de uma década depois do início da popularização da internet no Brasil e quase dois anos após as primeiras discussões sobre o projeto UCA (Um Computador por Aluno), que deveria disponibilizar laptops de baixo custo para os alunos da rede pública brasileira, teve lugar em São Paulo o primeiro seminário que tratou da forma com que a internet pode transformar a forma de ensinar. O I Seminário WebCurrículo, promovido pela PUC de São Paulo aproximou especialistas e pesquisadores da área de educação aos profissionais da área de tecnologia para responder a questões sobre como desenvolver um curriculo escolar que se integre às ferramentas disponíveis na internet. Diferente da Educação à Distância, que abranje outros meios além da internet, o Webcurrículo prevê a internet integrada a todo o fazer pedagógico.

Maria Elizabeth Bianconcini, uma das idealizadoras do evento, enxerga uma falta generalizada de cultura digital dos professores envolvidos com projetos ligados ao uso do computador nas escolas e isso se mostra um grande impecilho ao uso efetivo das tecnologias como facilitadoras do aprendizado. “Ainda existe um deslocamento espacial até o laboratório de computação, que enfatiza a distância entre sala de aula e uso das novas tecnologias”. Para a pesquisadora, que é professora e pesquisadora ligada ao programa de pós-graduação em Educação da PUC-São Paulo, esse tipo de atitude acaba trazendo apenas resultados pontuais mas não necessariamente efetivos e de longa duração. “É necessário integrar essas duas coisas, fazer com que ambas se transformem mutuamente, numa perspectiva de integração que mude as práticas pedagógicas e a forma com que se usa a internet e as tecnologias de comunicação”.

Essa discussão não é nova. Há pelo menos 18 anos a Escola do Futuro na USP desenvolve pesquisas colocando a educação em uma perspectiva integrada com novas tecnologias. Mas a idéia da total integração de internet e aprendizado é mais recente, diz José Manuel Moran, professor da USP. “A idéia da internet como apoio à educação não é nova, mas permear a educação pela web é bastante recente. A escola ganharia com a flexibilização, pois os alunos atualmente se sentem perdidos em um ambiente arbitrário, moroso e castrador totalmente diferente da realidade fluida que corre fora dos muros da escola”, diz Moran. As atuais dificuldades e situações que chegam a violências contra professores, para Moran, evidenciam o choque de gerações dentro da sala de aula. “A escola como um todo está obsoleta” completa. Para Moran o cenário atual é completado pela falta de preparo dos professsores, má remuneração dos profissionais e a convivência em uma estrutura engessada e que não tem interesse em assimilar novidades, em contraposição ao que  deveria ser um espaço vivo de aprendizagem. “O próprio vocabulário que descreve o funcionamento da escola como ‘grade’ curricular, ‘controle’ de presença ou ‘planos’ de aula já nos dá uma idéia do quanto esse espaço é refratário a novas atitudes” confirma João Vilhete d’Abreu, coordenador do Núcleo de Informática Aplicada a Educação (NIED) da Unicamp.

Para João, não há como pensar uma vivência sem internet fora da escola, então como pensar o aprendizado sem a internet. “É um contrasenso sem tamanho”, diz. Para o pesquisador o mercado já se apoderou dessas ferramentas e a morosidade do estado em implantar políticas públicas que vislumbrem essa evolução tecnológica se refletirá em um futuro muito breve, principalmente nas classes mais baixas. “É claro que temos que lembrar que o poder público não lida muito bem com o ‘problema’ das pessoas terem mais acesso a meios de comunicação em escala global em um ambiente que é taxado de anárquico”, reflete João, que aponta a ênfase dos críticos na palavra anarquia resultando em um excesso de zelo e de regulamentações, reflexo de um estado centralizador e controlador. Moran, lembra que há pouco mais de um mês foi aprovada uma lei estadual que permite que até 20% das aulas no ensino médio podem ser à distância. “A posição da Rede Pública de Ensino foi imeditamente contrária à lei. Há uma desconfiança de que o ensino online será pior, mas isso é preconceito.” O que precisa ser lembrado, diz Moran, é que os alunos têm que aprender a aprender, ou seja, o professor não pode mais ser o único vetor do conhecimento, mas um facilitador na construção de uma atitude pró-ativa na procura por respostas.

Experiências

Maria Elizabeth exemplifica como a integração da internet com o dia-a-dia da sala de aula podem modificar positivamente os ambientes. Ela cita o exemplo de uma escola da Rede Pública em Palmas no estadao do Tocantins onde o uso do computador durante os 45 minutos de aula não condiziam com o tempo ideal para a realização das atividades propostas. A idéia foi aumentar o tempo de aula para 2 horas e com isso foi necessário repensar e modificar significativamente todo os planejamentos de aula. Além dos laboratórios de computação houve uma re-siginificação de todo o espaço da escola, incluindo a biblioteca, de uma forma a ocupar de uma forma mais fluida os tempos de aprendizado. Todos os pesquisadores também acreditam que o projeto Um Computador por Aluno (UCA) do Governo Federal é um projeto de vanguarda mundial e avaliam que o atraso na implantação da 2ª fase não é desastroso, ainda, mas que após sua implantação haverá mudanças significativas no modo de pensar a educação e todos têm que estar preparados. “Projetos não faltam, mas a efetização é falha por falta investimento para a infra-estrutura” avalia Moran.

..:: Enio Rodrigo Barbosa Silva ::..

* publicado originalmente na revista eletrônica ComCiência

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