Archive for Dezembro, 2008

Amadores tentam técnicas de engenharia genética em casa

Os equipamentos do laboratório são caseiros, e o conhecimento científico é obtido por meio da internet. Ainda assim, algumas pessoas estão se aventurando na criação de novas formas de vida com os conhecimentos de engenharia genética –um caminho geralmente longo, e trilhado por PhDs de universidades e de laboratórios corporativos.

Em São Francisco, por exemplo, a programadora Meredith L. Patterson, 31, tenta desenvolver uma alteração genética na bactéria de iogurtes, que os tornaria fluorescentes na presença de melamime, substância mortal que intoxicou crianças na China em outubro deste ano.

Noah Berger/AP
Meredith L. Patterson faz experimentos caseiros de engenharia genética; a programadora montou seu laboratório com menos de US$ 200
Meredith Patterson faz experimentos de engenharia genética; a programadora montou seu laboratório com menos de US$ 200

“As pessoas podem trabalhar de forma concreta em projetos para o bem da humanidade, se realmente quiserem aprender sobre os assuntos”, disse.

Seus conhecimentos em engenharia genética provêm de artigos científicos e sugestões de comunidades virtuais. Ela ordenou o código genético de uma bactéria fluorescente por menos de US$ 100. Construiu seu próprio laboratório que inclui um analisador de DNA que ela fez, com custo de US$ 25.

Até agora, entretanto, nenhum gênio da engenharia genética saiu de cozinhas ou garagens.

Críticos do movimento temem que os experimentos dos cientistas caseiros causem um desastre médico ou ambiental. Defensores, em contrapartida, dizem que o futuro Bill Gates da biotecnologia está desenvolvendo a cura do câncer na garagem.

Muitos desses amadores estudaram biologia no ensino médio, mas não têm conhecimentos avançados, e também não possuem vivência no campo da biotecnologia. Alguns, orgulhosamente, se auto-intitulam “bio-hackers” -inovadores que ultrapassam as barreiras tecnológicas e do conhecimento, em detrimento dos lucros.

Um grupo de Cambridge chamado DIYbio está criando uma comunidade laboratorial, na qual o público poderá usar produtos químicos e equipamento de laboratório, incluindo o uso de um freezer a 80°C abaixo de zero -temperatura necessária para manter alguns tipos de bactérias vivas.

O co-fundador do grupo, Mackenzie Cowell, 24, diz que os amadores provavelmente tentarão enveredar por um trabalho sério, como novas vacinas ou biocombustíveis muito eficientes, mas que eles também podem tentar, por exemplo, usar genes de lulas para criar tatuagens fluorescentes.

“A criatividade ilimitada pode trazer descobertas importantes. Vamos tentar fazer a ciência ser mais sexy e mais divertida, como um videogame”, diz o jovem, que é formado em Biologia.

Jim Thomas, do observatório e biotecnologia ETC Group, advertiu que organismos sintéticos nas mãos de amadores podem escapar –e provocar surtos de doenças incuráveis ou imprevisíveis os danos ambientais.

“Depois de passar para pessoas que trabalham nesses locais informais, não há processo de segurança no local”, disse ele.

Alguns também temem que terroristas possam tentar o “faça-você-mesmo” da engenharia genética. Mas Meredith Patterson rebate: “Um terrorista não precisa ir ao DIYbio. É mais simples. Eles podem se matricular na escola da comunidade, e ter acesso ao conhecimento.”

* publicada originalmente na Folha Online

Add comment 26 Dezembro 2008

Lei afasta inventor da posse de patentes

A questão cultural, mais do que a jurídica, é um dos grandes gargalos do sistema de inovação nacional, apesar de não ser o único. Se os recursos para transformar conhecimento em produtos existem, como gosta de alardear o ministro Sergio Rezende (Ciência e Tecnologia), é fácil perceber quais engrenagens estão emperradas.

Um exemplo cristalino vem do centenário Instituto Butantan, em São Paulo. No local, funciona o CAT (Centro de Toxinologia Aplicada) e também um dos Cepids (centros de pesquisa, inovação e difusão) da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Sob comando do médico Antonio Camargo, o grupo trabalha isolando moléculas do veneno de serpentes para depois tentar transformá-las em importantes medicamentos.

Ao todo, explica Camargo, o CAT já depositou 13 patentes desde 2001. Nenhuma delas, porém, obteve ainda concessão dos órgãos nacionais ou internacionais que analisam esses pedidos. Aqui, é que o imbróglio cultural começa.

“Nas patentes mais antigas todo mundo fez aquilo que achou que era o mais promissor em termos de proteção do conhecimento gerado com recursos públicos. Em alguns casos [como os do CAT], os pesquisadores foram colocados como co-titulares das patentes”, diz Cristina Assimakopoulos, especialista em patentes da Fapesp. A instituição pública, que investiu milhões de dólares no processo, é também uma das titulares das patentes do CAT.

A evolução da legislação mudou o cenário. O Brasil já havia editado uma Lei de Propriedade Industrial, em 1996, e a Lei da Inovação Tecnológica fez algumas alterações em 2004. Tudo, em tese, deve ser tratado entre pessoas jurídicas. No caso específico, entre o Butantan, a Fapesp e o setor privado.

É exatamente esse o ponto que o professor Camargo quer discutir. “Os pesquisadores, legítimos co-proprietários da propriedade intelectual, não concordam com a usurpação desse direito”, afirma ele à Folha. O caso do CAT não é o único. Levantamento feito pela pesquisadora Isabel Drummond, que trabalha para a Fundação Biominas, mostra que entre 1998 e 2000, só na área de biotecnologia, 16% das patentes pedidas tinham o inventor como titular do processo. “É um número alto”, afirma a pesquisadora. Para ela, hoje, essa porcentagem continua válida.

Do lado do setor privado, patentes frutos de pesquisas lideradas por Camargo foram negociadas com a Coinfar -parceria que reúne as empresas Biolab, Aché e União Química.

Divórcio de intenções

Segundo William Marandola, representante da Coinfar, a legislação é clara. “Numa instituição de pesquisa, a patente pertence à instituição. Não ao pesquisador.” Pela lei, diz o executivo, uma coisa é a figura do inventor e outra é a do titular da patente, “o dono do ativo representado pela patente”. Marandola afirma que nenhuma empresa vai investir em projetos que estejam com uma pessoa física. “E se ocorre uma morte? Um divórcio?”, diz. Ninguém quer patentes retidas num inventário em disputa.

No caso do Butantan, há outra peculiaridade. Para a assinatura de um contrato de licenciamento de patente, a legislação estadual obriga que tudo seja aprovado pela Assembléia Legislativa. Isso só aumenta o risco, na visão das empresas.

De acordo com o diretor do Butantan, Otávio Mercandante, a instituição está se modernizando para se adequar à nova realidade das patentes.

Escritórios especializados em propriedade intelectual, como a Clarke, Modet & C, foram ouvidos pela Folha, além de cientistas autores de invenções. Eles recomendam que os pesquisadores de instituições públicas renegociem seus contratos tendo dois objetivos em mente: sair da titularidade da patente, mas não sem negociar um quinhão do dinheiro que pode vir da invenção –um lucro, aliás, que tem sido mais a exceção do que a regra.

* publicada originalmente na Folha Online

Add comment 26 Dezembro 2008

Webcurrículo: a internet e educação integradas

s5002735Mais de uma década depois do início da popularização da internet no Brasil e quase dois anos após as primeiras discussões sobre o projeto UCA (Um Computador por Aluno), que deveria disponibilizar laptops de baixo custo para os alunos da rede pública brasileira, teve lugar em São Paulo o primeiro seminário que tratou da forma com que a internet pode transformar a forma de ensinar. O I Seminário WebCurrículo, promovido pela PUC de São Paulo aproximou especialistas e pesquisadores da área de educação aos profissionais da área de tecnologia para responder a questões sobre como desenvolver um curriculo escolar que se integre às ferramentas disponíveis na internet. Diferente da Educação à Distância, que abranje outros meios além da internet, o Webcurrículo prevê a internet integrada a todo o fazer pedagógico.

Maria Elizabeth Bianconcini, uma das idealizadoras do evento, enxerga uma falta generalizada de cultura digital dos professores envolvidos com projetos ligados ao uso do computador nas escolas e isso se mostra um grande impecilho ao uso efetivo das tecnologias como facilitadoras do aprendizado. “Ainda existe um deslocamento espacial até o laboratório de computação, que enfatiza a distância entre sala de aula e uso das novas tecnologias”. Para a pesquisadora, que é professora e pesquisadora ligada ao programa de pós-graduação em Educação da PUC-São Paulo, esse tipo de atitude acaba trazendo apenas resultados pontuais mas não necessariamente efetivos e de longa duração. “É necessário integrar essas duas coisas, fazer com que ambas se transformem mutuamente, numa perspectiva de integração que mude as práticas pedagógicas e a forma com que se usa a internet e as tecnologias de comunicação”.

Essa discussão não é nova. Há pelo menos 18 anos a Escola do Futuro na USP desenvolve pesquisas colocando a educação em uma perspectiva integrada com novas tecnologias. Mas a idéia da total integração de internet e aprendizado é mais recente, diz José Manuel Moran, professor da USP. “A idéia da internet como apoio à educação não é nova, mas permear a educação pela web é bastante recente. A escola ganharia com a flexibilização, pois os alunos atualmente se sentem perdidos em um ambiente arbitrário, moroso e castrador totalmente diferente da realidade fluida que corre fora dos muros da escola”, diz Moran. As atuais dificuldades e situações que chegam a violências contra professores, para Moran, evidenciam o choque de gerações dentro da sala de aula. “A escola como um todo está obsoleta” completa. Para Moran o cenário atual é completado pela falta de preparo dos professsores, má remuneração dos profissionais e a convivência em uma estrutura engessada e que não tem interesse em assimilar novidades, em contraposição ao que  deveria ser um espaço vivo de aprendizagem. “O próprio vocabulário que descreve o funcionamento da escola como ‘grade’ curricular, ‘controle’ de presença ou ‘planos’ de aula já nos dá uma idéia do quanto esse espaço é refratário a novas atitudes” confirma João Vilhete d’Abreu, coordenador do Núcleo de Informática Aplicada a Educação (NIED) da Unicamp.

Para João, não há como pensar uma vivência sem internet fora da escola, então como pensar o aprendizado sem a internet. “É um contrasenso sem tamanho”, diz. Para o pesquisador o mercado já se apoderou dessas ferramentas e a morosidade do estado em implantar políticas públicas que vislumbrem essa evolução tecnológica se refletirá em um futuro muito breve, principalmente nas classes mais baixas. “É claro que temos que lembrar que o poder público não lida muito bem com o ‘problema’ das pessoas terem mais acesso a meios de comunicação em escala global em um ambiente que é taxado de anárquico”, reflete João, que aponta a ênfase dos críticos na palavra anarquia resultando em um excesso de zelo e de regulamentações, reflexo de um estado centralizador e controlador. Moran, lembra que há pouco mais de um mês foi aprovada uma lei estadual que permite que até 20% das aulas no ensino médio podem ser à distância. “A posição da Rede Pública de Ensino foi imeditamente contrária à lei. Há uma desconfiança de que o ensino online será pior, mas isso é preconceito.” O que precisa ser lembrado, diz Moran, é que os alunos têm que aprender a aprender, ou seja, o professor não pode mais ser o único vetor do conhecimento, mas um facilitador na construção de uma atitude pró-ativa na procura por respostas.

Experiências

Maria Elizabeth exemplifica como a integração da internet com o dia-a-dia da sala de aula podem modificar positivamente os ambientes. Ela cita o exemplo de uma escola da Rede Pública em Palmas no estadao do Tocantins onde o uso do computador durante os 45 minutos de aula não condiziam com o tempo ideal para a realização das atividades propostas. A idéia foi aumentar o tempo de aula para 2 horas e com isso foi necessário repensar e modificar significativamente todo os planejamentos de aula. Além dos laboratórios de computação houve uma re-siginificação de todo o espaço da escola, incluindo a biblioteca, de uma forma a ocupar de uma forma mais fluida os tempos de aprendizado. Todos os pesquisadores também acreditam que o projeto Um Computador por Aluno (UCA) do Governo Federal é um projeto de vanguarda mundial e avaliam que o atraso na implantação da 2ª fase não é desastroso, ainda, mas que após sua implantação haverá mudanças significativas no modo de pensar a educação e todos têm que estar preparados. “Projetos não faltam, mas a efetização é falha por falta investimento para a infra-estrutura” avalia Moran.

..:: Enio Rodrigo Barbosa Silva ::..

* publicado originalmente na revista eletrônica ComCiência

Add comment 15 Dezembro 2008

Os riscos e a inovação tecnológica

escherdiceverdeInovação e risco são intrínsecos. Ao contrário da visão que se tem normalmente sobre o risco, quem lida com inovação tecnológica e científica sabe que trabalhar em um cenário de risco não deva ser encarado com algo negativo, mas como parte integrante do processo. O sucesso e pioneirismo, como o que o etanol da cana-de-açucar atingiu no país e exterior como uma das maiores apostas de alternativa ao combustível fóssil, exigiu que muitos apostassem na tecnologia. E para cada nível de risco assumido em um ambiente inovativo cresce a possibilidade de retorno do investimento. “Quanto maiores os riscos maiores as probabilidades de ganho” afirma a professora Daisy Rebellato, que trabalha junto ao Departamento de Engenharia de Produção da USP de São Carlos. No Brasil, o investimento para a inovação é, sobretudo, público, diferentemente de países desenvolvidos, nos quais o empresariado participa mais ativamente deste processo.

Para entender essa equação é preciso lembrar que o processo inovativo vai além da invenção, no qual o erro é inevitável e permitido. É preciso também fazer distinção entre perigo (que é algo já existente) e risco, que é um perigo em potencial, uma tendência e que sempre pode ser mitigada. Quem opta por se arriscar, sabe dos perigos em potenciail e mesmo assim continua em frente, vislumbrando soluções que podem apagar paradigmas vigentes (caso do estanol usado como exemplo acima, no texto)  “Como a inovação desencadeia outras relações até então desconhecidas, ela abre um universo de possibilidades”, afirma o professor Thales de Andrade, d0 Departamento de Ciências Sociais da UFSCar.

Ao falar de inovação tecnológica é preciso entender o nível de incerteza ao se tentar criar algo totalmente inédito. Um produto, processo, uma nova ferramenta ou a inovação de um modelo de negócio, como a tentativa de se posicionar dentro de um novo mercado, por exemplo, precisam lidar com incertezas de sucesso. Mesmo o conceito de sucesso e falha dentro de um ambiente de risco é incerto e tem que ser relativizado. De uma forma geral, o sucesso imediato é sinônimo de retorno financeiro, mas em outras áreas (como a ambiental) o sucesso pode vir a médio ou longo prazo.”Veja o exemplo da energia eólica. É um produto inovador e bem sucedido em termos ambientais, porém ainda é economicamente pouco sucedido”, comenta Thales de Oliveira. Na contra-mão, está o exemplo do automóvel, lembra o pesquisador, que demanda de um combustível difícil de ser obtido, é poluente, tem baixíssima reversibilidade tecnológica, além de forçar o poder público a investir constantemente em infra-estrutura e estradas. “Mas é um sucesso econômico”, diz.

Outros fatores de risco devem ser considerados como a aceitação do mercado, que é tencionado pelo contexto social. Como tantos poréns fazem da inovação tecnológica algo rentável e atraente? O mercado altamente competitivo pode ser uma das respostas. “Num ambiente em constante mudança nos mais diversos níveis, com muita competição em inovação, quem chega primeiro tem vantagem para explorar os frutos”, diz Marcos Brefe, gerente coordenador do Instituto ParqTec de Design, em São Carlos. Por outro lado, exatamente pela alta competividade, o tempo para explorar uma inovação comercialmente é muito reduzido, seja porque outros em breve chegarão aos mesmos resultados, ou porque outros vão licenciar a inovação e competir na mesma escala. De qualquer forma, as inovações tecnológicas tendem, rapidamente, a se tornar commodity, gerando novas necessidades de inovação em um ambiente de alto risco.

Risco mitigado, mas não controlado

Para que o ambiente de inovação seja mais eficiente e garanta (ou melhor, indique uma forte tendência de) maiores lucros entram em cena as equipes de análise de risco que, segundo Daisy Rebellato, devem ser multidisciplinares, abrangendo profissionais com visões diversas. As equipes, defende, não devem ser submetidas a regras muito fixas de atuação, mesmo porque, como pontua Thales “inovação não pode ser burocratizada, submetida a parâmetros antes mesmo do início. Sem risco se cria um ambiente asfixiante”.

Em modo geral, avalia Rebellato, é possível mitigar o risco durante quatro etapas que compõem o processo de inovação. Num primeiro momento, é preciso fazer um estudo dos pontos frágeis do projeto e que podem inviabilizar completamente o processo seguido de um segundo passo onde é preciso avaliar – e classificar – o grau de dano dos eventos identificados e, então, num terceiro movimento, criar gerências dos eventos danosos ao projeto. É nesse  momento  que o investidor tem que demonstrar sua capacidade de investimento econômico, pois com base  nessa análise parcial dos riscos ele tem idéia do quanto o montante investido pode se transformar em déficit, olhando o panorama geral do projeto. Finalmente, em última instância, o grupo de análise identifica os mecanismos de controle de riscos no âmbito de mercado (necessidades de campanhas de marketing, por exemplo), de produção (treinamento ou readequação de pessoal) e riscos financeiros (como capacidade dos contratantes honrarem os compromissos até o final do processo, chegando até a distribuição). A partir desse ponto, investimento feito e concluída a geração de potenciais inovações, começa um outro jogo, agora na esfera social. Nessa etapa, a partir do contato com a sociedade os riscos passam a ser da alçada das agências reguladoras civis (como o Procon, ONGs e associações) ou governamentais. E finalmente o risco maior: se o produto de tudo isso vai se traduzir em demanda e consumo e gerar lucro econômico ou algum tipo de vantagem.

Desertificação e burocracia

No caso brasileiro, as universidades também são ambientes tanto de mitigação quanto de assimilação de riscos. Isso porque, ao contrário de modelos como o europeu ou o norte-americano, onde o empresariado assume para si toda a cadeia de inovação, no Brasil, o poder público é obrigado a agir como investidor, em função da falta de tradição do empresariado em investir em inovação. Aqui, o investimento se dá através de dinheiro público em pesquisa, processo geralmente intermediado por agências de transferência de conhecimento (como a Inova, da Unicamp, e a Intelecto, da Universidade Federal de Uberlândia) ou agências de fomento.

A mitigação dos riscos fica por conta da ação de comissões de ética e pesquisa dentro das instituições. “Na universidade pública o risco, de certa forma, é diluído, pois existem ambientes criados exatamente para esse fim e que recebem, muitas vezes, verbas a fundo perdido para determinadas áreas”, descreve Eduardo Nunes Guimarães, pró-reitor de pesquisa e graduação da Universidade Federal de Uberlândia, a qual a Agência Intelecto está ligada. “Para a Intelecto, por exemplo, o sucesso está ligado a colocar um produto que é fruto de pesquisa dentro da universidade em contato com a sociedade, além de evidenciar a origem dos atores envolvidos no processo de inovação. Um produto após ser patenteado e transferido para o setor de produção fica a disposição da sociedade que, indiretamente, o financiou”, afirma Guimarães.

O revés desse tipo de política é o que Thales chama de “risco de desertificação tecnológica”, ou seja, áreas sem muito investimento do poder público têm menos propensão à inovação. “Áreas como nanotecnologia, biotecnologia, tecnologias da comunicação recebem, atualmente, grande volumes de verba pública e sem um empresariado ativo, outras áreas acabam se ‘desertificando’”, lamenta. Exemplos disso são determinadas técnicas em agricultura que acabam se estandartizando – por conta da escolha do investimento das agências governamentais – gerando uma perda de diversidade cultural na área, seja por  falta de registro ou de estudos iniciais, e portanto diminuindo o potencial de novos saltos evolutivos em um futuro próximo. Outros problemas desse modelo também são apontados por Brefe: “nos programas de fomento do governo, o risco está nos critérios de avaliação, no excesso de burocracia, na morosidade de aprovação e liberação de recursos, no engessamento da utilização de recursos, nos projetos apoiados sem uma adequada avaliação de mercado e da capacidade dos pesquisadores em desenvolvimento de produto, que é muito diferente de desenvolvimento de tecnologia”, enfatiza Thales.

Mas esse cenário também está sujeito a inovações. Daisy Rebellato indica que uma saída para essa herança de dependência do poder público está nos fundos mistos de investimento no qual as empresas se associam ao governo para destinarem verbas a temas de interesse na área de inovação tecnológica. Aos poucos, no futuro, a participação do governo deve diminuir. Mas iniciado o ciclo inovativo espera-se que este continue com cada vez menos aporte do poder público.

..:: Enio Rodrigo Barbosa Silva ::..

* publicado originalmente na revista eletrônica ComCiência

 

Add comment 10 Dezembro 2008

Biblioteca Mário Schenberg ganha núcleo temático de ciência

Hall de entrada é um convite ao espaço dedicado à ciência

Hall de entrada é um convite ao espaço dedicado à ciência

 

A biblioteca Mário Schenberg se torna a primeira biblioteca pública da rede municipal no Brasil a assumir uma vocação na divulgação da ciência. A partir da idéia de aproximação dos espaços das bibliotecas públicas com a população do entorno urbano em que elas estão, foi desenvolvido o projeto de Núcleos Temáticos, que desde o começo do ano passado vem tomando corpo na cidade de São Paulo. O projeto das bibliotecas temáticas prevê, além do aumento das obras referenciais no tema escolhido, utilizar o espaço das bibliotecas (incluindo sala multimídia, anfiteatros e outros espaços potenciais) para realizar eventos diversos. Originalmente idealizado pela Secretaria Municipal de Cultura, o projeto chegou à Lapa, onde o Sistema Municipal de Bibliotecas (SMB) da cidade de São Paulo inaugurou, no último dia 9 de novembro, o núcleo temático da Biblioteca Temática de Ciências Mário Schenberg, situada no bairro. Além do acervo temático, o hall principal ganhou uma exposição temporária e uma programação de eventos continuados, aproveitando o espaço do auditório, que também deverá abrigar peças teatrais. Essa é a sexta biblioteca, de um total de 52 unidades administrada pelo sistema municipal, que ganha um núcleo temático, cujas temáticas variam de poesia a ficção fantástica.

Mas as bibliotecas temáticas não perdem seu acervo, ao contrário, soma-se ao acervo comum o acervo temático, explica Marlon Florian, coordenador geral de programação dos núcleos temáticos do sistema municipal de bibliotecas. “Como são bibliotecas de bairro, a idéia é dar continuidade à vocação projetada pela comunidade que frequenta o espaço. No caso da Lapa a proximidade com a Estação Ciência [museu de ciências] deu o tom”, continua. Marlon lembra que a Estação não tinha um acervo e o apoio institucional dos pesquisadores para a biblioteca é construtivo para ambos, pois os prédios são bastante próximos.

Patrono da biblioteca, Mário Schenberg foi cientista de destaque e critico de arte, merecendo lugar de honra no espaço inaugurado.

Patrono da biblioteca, Mário Schenberg foi cientista de destaque e crítico de arte, merecendo lugar de honra no espaço inaugurado.

Olga Sato, que participa do grupo de três curadores contratados para o projeto e que são responsáveis pela escolha do acervo científico, além de serem responsáveis pela exposição no hall de entrada na biblioteca, explica que a idéia é transformar o espaço de entrada em um convite para um ambiente que instigue a curiosidade e a exploração. “Tentamos dar uma pincelada sobre vários temas, de física e música, passando por aquecimento global e também montamos um painel que dá aos visitantes noções de micro e macro”, diz a pesquisadora que é física formada pela Universidade de São Paulo e doutora em oceanografia pela Universidade de Rhode Island (EUA). Trabalham na equipe também Marianne Frederick, responsável pela área de ciências biológicas e de saúde, e Arnaldo Oliveira, responsável pela curadoria na área de física. “A intenção”, continua Sato, “é também formatar um espaço onde possamos incentivar para a ciência e talvez inspirar os usuários para carreiras de pesquisa, quem sabe até futuros cientistas”.

O site da biblioteca também foi pensado para facilitar a busca de obras no acervo além de ser um portal com diversos recursos multimídia. É possível ter acesso a textos atualizados sobre ciência e biografias de grandes cientistas. “Agora vamos nos concentrar em consolidar uma agenda de palestras e eventos, e trabalhar em idéias de divulgação da cultura científica em cooperação com museus de ciência, por exemplo”, finaliza a curadora. 

..:: Enio Rodrigo Barbosa Silva ::..

* publicado originalmente na revista eletrônica ComCiência

Add comment 9 Dezembro 2008


Paralelas

O blog Paralelas é um espaço de reflexão e de debate acerca de temas relacionados à comunicação, à ciência e à cultura, criado e alimentado pelos alunos do curso de especialização em jornalismo científico do Labjor/Unicamp

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