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Fabíola Oliveira: Temos uma formação muito ruim em jornalismo
A vencedora do Prêmio José Reis de Divulgação Científica de 2002 critica o caráter tecnicista da formação jornalística atual e diz que o jornalista de ciência aprende mesmo é no dia a dia
Passadas mais de três décadas da criação da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e dos primeiros cursos acadêmicos na área, ainda há pouca oferta para se formar bons jornalistas de ciência no Brasil.
A constatação foi feita durante simpósio sobre formação e pesquisa em jornalismo científico realizado nesta terça-feira, na 60ª Reunião Anual da SBPC em Campinas.
Coordenadora do encontro, a jornalista Maria das Graças Caldas, pesquisadora da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), mostrou dados de um mapeamento realizado em 2005, que identificou, em um total de 304 cursos de jornalismo em todo o Brasil, apenas 31 disciplinas em jornalismo científico, sendo que 20 delas oferecidas por instituições privadas.
Caldas está trabalhando em um novo levantamento para saber o quanto esse quadro mudou, mas já adiantou que o número de disciplinas em jornalismo científico não deve ter acompanhado o crescimento do número de cursos de jornalismo. Mas ela espera que pelo menos a proporção de cursos oferecidos por universidades públicas na área tenha aumentado.
Fabíola Oliveira, com longa trajetória no jornalismo científico, autora de livro no campo e ex-coordenadora do curso de jornalismo da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), criticou os cursos atuais de jornalismo por darem cada vez mais espaço a disciplinas técnicas, em detrimento de matérias teóricas básicas necessárias para formar um jornalista mais crítico e esclarecido.
“Comprar equipamentos é mais barato do que contratar bons professores”, disse Fabíola no encontro. O resultado disto é uma formação muito ruim em jornalismo de maneira geral, acrescentou.
No caso mais específico da formação em jornalismo de ciência, Fabíola também chamou atenção para a falta de oferta na área, apesar do surgimento de algumas iniciativas mais recentes.
Ela citou como exemplos positivos o curso de especialização em jornalismo científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), na Unicamp, que já formou 240 alunos, e o novo curso de mestrado em divulgação científica criado pelo laboratório, que inicia a primeira turma este ano.
Apesar dessas iniciativas pontuais, “ainda estamos longe de ter uma massa crítica de jornalistas que se interessam e se formam na área”, afirmou Fabíola.
Para a jornalista, a má distribuição dos cursos existentes, concentrados na região sudeste, também é um problema, mas que reflete a desigualdade regional do país. Nesse sentido, Fabíola destacou a importância dos cursos à distância e a necessidade de se levar iniciativas de formação para todo o país.
“Enquanto isto não acontecer, vamos ter pouca gente dedicada ao jornalismo de ciência”.
Diante da falta de oferta de formação – em termos de quantidade, qualidade e distribuição geográfica –, a experiência do dia a dia do jornalista de ciência acaba sendo a mais importante, ressalta Fabíola.
“Cabe ao jornalista se especializar por conta própria, lendo muito, pesquisando, participando de encontros científicos e de eventos como a Reunião Anual da SBPC.”
Participou também do simpósio Vera Regina Toledo, da Unicamp, que apresentou a experiência do Labjor e os conceitos de cultura científica difundidos em seus cursos e publicações.
* Jornal da Ciência (Carla Almeida)
Add comment 17 Julho 2008