Archive for Julho 11th, 2008

Paralelas entrevista Wilson Bueno

Wilson Bueno é um dos maiores nomes brasileiros quando se fala em jornalismo científico. Jornalista, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP, professor de Jornalismo da ECA/USP, editor do Portal do Jornalismo Científico on Line e atual presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico – ABJC (www.abjc.org.br), escreveu os livros Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente, Comunicação Empresarial: uma Leitura Crítica e Jornalismo Científico no Brasil: Aspectos Teóricos e Práticos. Preocupa-se não apenas com a divulgação científica em si, mas especialmente com a formação dos divulgadores científicos – e é isso que ele discute na entrevista abaixo.

PARALELAS - Qual a importância de uma formação para se divulgar a ciência?
WILSON BUENO – A cobertura de ciência e tecnologia pressupõe conhecimentos básicos de história, filosofia e sociologia da ciência, do sistema de produção científica e em particular das relações nem sempre claras entre ciência e tecnologia, poder econômico, poder político, militar etc. É fundamental, portanto, uma formação sólida para que o jornalista/divulgador não se torne refém das fontes, muitas delas comprometidas com interesses extra-científicos.

PARALELAS – Há de fato uma tendência atual de crescimento no oferecimento desses cursos – e na procura por eles? Por quê?
BUENO – Sim. E isso acontece por dois motivos: a) as universidades e o mercado já se deram conta de que há demanda por esta formação, pela importância crescente da ciência e tecnologia na sociedade moderna; b) há potencialmente grande espaço para o crescimento do mercado para divulgadores científicos, especialmente no Brasil, onde temos um déficit importante de publicações especializadas, de editorias específicas na mídia etc. Temas contundentes e com grande cobertura da mídia como transgênicos, nanotecnologia, células-tronco, mudanças climáticas etc. contribuem para reforçar este cenário.

PARALELAS –
O que há de específico na formação de divulgadores científicos?
BUENO – Essa formação exige: conhecimento menos do que trivial do sistema de produção científica, de temas que estão na agenda de debates e das peculiaridades da divulgação científica (uso de fontes especializadas, interação com o público leigo, o que implica na formatação de conteúdos adequados a determinadas audiências) e, sobretudo, a meu ver, a consciência da importância do processo de democratização do conhecimento e do papel do divulgador na alfabetização científica da população.

PARALELAS – Como tem sido pensada essa formação?
BUENO – Ela tem sido tímida, quase inexistente em nosso País. Menos de 10 % dos cursos de Jornalismo tem alguma disciplina ou conteúdo que privilegiam este campo e, portanto, temos ainda muito a avançar. Certamente, faltam também professores e espaços nas grades curriculares dos cursos.

PARALELAS - Há muita crítica aos profissionais que divulgam ciência e parte dela é depositada em sua formação. O que tem sido discutido a esse respeito?
BUENO - É verdade e, na maior parte dos casos, esta crítica faz sentido porque não é possível cobrir ciência, com toda a sua complexidade, ethos específico etc sem uma preparação básica, o que implica nos conhecimentos já mencionados nas respostas anteriores. Não se pode cobrir ciência como se cobre futebol porque o processo de apuração precisa ser refinado,  bom domínio de conceitos, contextualização dos fatos, resultados e descobertas; a identificação precisa das fontes etc. Na prática, a formação não está sendo mal realizada: é ainda pior, nem está sendo feita.

PARALELAS – Que críticas podem ser feitas aos cursos de formação em divulgação científica no Brasil? Que lacunas e problemas apresentam?
BUENO - Como mencionei na resposta anterior, há poucos cursos com essa especificidade e nem sempre atendem aos objetivos desta formação. Há duas tendências: ou se prioriza apenas o processo de produção jornalística ou se dá apenas ênfase ao campo da ciência e da tecnologia, com pouca atenção ao processo de divulgação. O pior equívoco é não politizar (no bom sentido) esta formação e se acreditar que a divulgação científica é apenas uma forma de tradução do discurso científico, relegando ao divulgador o papel de “taquígrafo” ou “ventríloco” de cientistas/pesquisadores. O jornalismo científico se baseia num discurso próprio, construído pelos jornalistas/divulgadores a partir das fontes, que devem ser confrontadas, contextualizadas etc. Há interesses em jogo e eles precisam ser descobertos, depurados, revelados. A formação do divulgador científico não pode inserir esta perspectiva ingênua e perigosa de que ciência e tecnologia não têm dono e que não há interesses poderosos agindo na produção, financiamento e divulgação da ciência e tecnologia. Esta história de ciência e tecnologia a serviço da humanidade já não vinga mais: há financiadores, patrocinadores etc. Pena que a imprensa ainda contempla esta cobertura com ingenuidade. Precisamos formar jornalistas/divulgadores científicos com uma perspectiva crítica para não ficarmos na mão das Monsantos, Bayers, Aracruzes, Novartis da vida.

PARALELAS – Os cursos de formação em divulgação científica no Brasil seguem uma tendência mundial? Em que difere ou se aproxima da formação em outros países?
BUENO – Não seguimos outros modelos, mesmo porque, como já afirmei, pouco formamos os nossos divulgadores científicos. Os programas dos cursos são formatados a partir de experiências de grupos ou de pessoas (os coordenadores dos cursos), levando em conta, sobretudo a disponibilidade dos professores, seus interesses e idiossincrasias. Não há uma proposta padrão para esses cursos no Brasil e não sei mesmo se essa seria a saída. Temos demandas em função das nossas diferenças regionais e acredito que um programa pensado para a realidade Amazônia não deve ser exatamente igual ao que temos aqui em São Paulo porque há demandas locais. Mas certamente teríamos que discutir isso porque não é razoável propor cursos sem atentar para as demandas e as exigências de um país emergente. Sou de opinião de que não devemos formar jornalistas científicos da mesma maneira que os americanos ou alemães. Temos uma pauta própria que precisa ser contemplada também.

PARALELAS – Em sua opinião, qual o futuro desses cursos – e dos especialistas que formam – no país?
BUENO – Os cursos ainda estão por vir (são poucas as experiências que temos) e julgo que, se eles forem propostos levando em conta as demandas do mercado, atendidas as exigências para a formação básica de um divulgador científico, poderão contribuir decisivamente para o aumento da massa crítica na área. Na prática, isso já está acontecendo e muitos de nossos divulgadores científicos (sobretudo os jornalistas por formação) têm buscado agregar conhecimentos com cursos de especialização, mestrado e doutorado.  O mercado brasileiro na área do jornalismo especializado tende a crescer (agricultura, biotecnologia, energia, meio ambiente etc) tende a crescer e inclusive acredito que esses divulgadores/jornalistas bem formados poderão , eles próprios, desenvolver projetos próprios, estimulando esse crescimento. Muitos dos bons projetos de divulgação científica no futuro não partirão da indústria da mídia ou das editoras que aqui estão, mas de novos empreendedores, que certamente desenvolverão propostas novas, criativas, multimídia, afinadas com as novas demandas e expectativas. Acredito firmemente nisso. O importante é formar divulgadores científicos com este perfil e não adestrar jornalistas que irão apenas repetir essas velhas fórmulas de cobertura. O meu receio é que os cursos de divulgação científica sigam o modelo tradicional e que tornem os divulgadores refém das fontes. A cobertura de ciência e tecnologia precisa ser problematizada, politizada, não estamos aqui para dar aulas de ciência. É um outro universo, mas parece que, sobretudo muitos colegas da Academia (jornalistas e pesquisadores) acreditam que esse deve ser o seu papel. Outra questão: não podemos tornar esta área exclusiva dos jornalistas profissionais, devemos estar libertos pelo menos nessa área dos ranços corporativistas, convocando todos aqueles que possam contribuir para a democratização do conhecimento. Mas como jornalista continuo achando que os profissionais de imprensa têm um papel importante a desempenhar e que esta formação deveria se iniciar já nos cursos de graduação. Não se trata apenas da prática do jornalismo científico, mas de sua pesquisa e reflexão. A nossa formação não deve ser confundida com adestramento, não devemos formar “focas” em jornalismo científico, produtores de leads e subleads, mas sujeitos pensantes. Caso contrário, repetiremos o modelo da Abril que convoca os jornalistas da Abril Jovem para produzir matérias pagas da Aracruz e da Petrobrás na Superinteressante.

:: Chris Bueno ::

1 comment 11 Julho 2008


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O blog Paralelas é um espaço de reflexão e de debate acerca de temas relacionados à comunicação, à ciência e à cultura, criado e alimentado pelos alunos do curso de especialização em jornalismo científico do Labjor/Unicamp

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