Archive for Julho, 2008

O desafio do financiamento de museus de ciência

Um dos grandes desafios dos museus de ciência tem sido conseguir verba para as despesas cotidianas. Além do aporte proporcionado pelos financiamentos públicos, que já estão a caminho, a solução apontada é seguir o modelos europeu e norte-americano, em que, diferentemente do Brasil, os recursos privados para financiamento de museus de ciência não são muito inferiores aos públicos. No entanto, essa é uma opção a ser vista com cautela para que as exposições e os museus não percam seu sentido original e transformem-se em “uma feira de marcas comerciais”.

O quadro atual é de uma crise que os investimentos públicos estão procurando sanar. “Os políticos e empresários gostam de inaugurar coisas. O difícil é conseguir recursos para custeio”, pondera José Ribamar Ferreira, do Museu da Vida da Fiocruz. Marcelo Knobel, ex-diretor do Museu Exploratório de Ciências da Unicamp, lembra que grandes museus do mundo todo estão passando por crises.

Hoje no Brasil, a criação e expansão de centros e museus de ciência depende, em grande parte, de verbas públicas. As fundações estaduais de amparo à pesquisa figuram entre as principais fontes de financiamento desses espaços de divulgação científica. Algumas delas estão com editais de popularização da ciência abertos. É o caso da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que até o próximo dia 25 recebe projetos que pleiteiem parte do R$ 1,64 milhão destinado ao Programa de Pesquisa em Centros de Ciências do Estado de São Paulo.

Já o edital de Apoio à Difusão e Popularização de Ciência e Tecnologia da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) continua aberto até o dia 4 de agosto e dispõe de R$ 2 milhões. O mesmo montante foi alocado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) para o edital do Programa de Difusão e Popularização da Ciência e Tecnologia de 2008, que já está encerrado e deve apresentar as propostas vencedoras no dia sete de agosto.

Em nível federal, o edital de Apoio à Projetos de Difusão e Popularização da Ciência e Tecnologia, aberto no final de 2007 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), recebeu 1232 propostas, das quais 58 foram contempladas com parte dos R$ 7 milhões destinados. “Praticamente todos os museus de ciência apresentaram algum projeto. O recurso é evidentemente muito pequeno em relação à demanda”, enfatiza Ildeu de Castro Moreira, diretor do Departamento de Difusão e Popularização da Ciência do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).

Desde 2003, o MCT tem assumido compromissos financeiros de curto e médio prazo com museus de ciência brasileiros. Entre 2004 e 2007, o investimento total superou os US$ 22 milhões. Pelo Plano de Ação de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Nacional 2007-2010, apresentado no final de 2007, outros R$ 95,2 milhões serão investidos nos próximos anos. Tais recursos são distribuídos não só por meio das fundações de amparo à pesquisa, mas também do CNPq e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Outras possibilidades

Além dessas agências, outros financiadores são apontados pelas pessoas envolvidas com a área de museus. Mário Donizeti Domingos acredita que as prefeituras vão tomar a dianteira dessas iniciativas. Ele é coordenador da Sabina – Escola Parque do Conhecimento, inaugurado no início de 2007 pela Secretaria de Educação e Formação Profissional de Santo André (SP). O museu recebeu, apenas naquele ano, R$ 36 milhões.

Antônio Carlos Pavão, presidente da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência (ABCMC) e diretor do Espaço Ciência, em Pernambuco, acrescenta que é importante buscar consórcios não só com o poder municipal, mas também estadual e federal para evitar a descontinuidade dos projetos. Para ele, o Ministério da Educação (MEC) também deveria investir nos museus, dada a importância desses espaços para a melhoria do ensino de ciências.

Para Moreira, outra fonte que precisa ser mais explorada são as emendas parlamentares e de bancadas, como já tem acontecido no caso do Museu de Ciência e Tecnologia da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). “Desde a nossa reabertura, em outubro de 2006, temos a parceria constante da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação. Recebemos também o aporte financeiro através de emenda parlamentar de alguns deputados baianos”, lembra Adriana Cunha, diretora do museu.

Investimento privado

No Brasil, os recursos privados para financiamento de museus de ciência são muito inferiores aos públicos. “O ministério está buscando mais recursos e quer que a iniciativa privada também participe, como acontece na Europa e nos Estados Unidos. Os recursos exigidos são altos e o governo sozinho não tem fôlego suficiente”, pontua Moreira. De 1985 a 2006, quando encerrou suas atividades, a Fundação Vitae foi a grande aliada do MCT, tendo injetado quase US$ 18 milhões em museus e centros de ciência. “Com a saída da Vitae, criou-se um vácuo. A demanda é muito grande”, lamenta Pavão.

Marcelo Firer, diretor do Museu Exploratório de Ciências da Unicamp sinaliza que uma das questões enfrentadas pelos museus é, por um lado, a dificuldade para obter financiamento para a divulgação científica como uma atividade em si, por vezes, desvinculada da pesquisa, e, por outro lado, não ser reconhecida como atividade cultural. Por isso, poucos projetos de divulgação das ciências têm conseguido se beneficiar de incentivos fiscais às empresas financiadoras, o que estimularia o investimento privado. “É preciso a inclusão do setor na Lei Rouanet ou a implementação de legislação de incentivo específica, em moldes semelhantes”, salienta Pedro Persechini, presidente do Espaço Ciência Viva. “Um museu de ciências não é uma instituição de produção de conhecimento científico, mas sim uma instituição cultural, no sentido pleno da palavra”, reflete Firer.

Ainda assim, os museus têm apostado em parcerias com as empresas. “Desde 2006, quando criamos uma área voltada para a formatação e captação de recursos, tivemos um crescente aumento no número de patrocinadores privados”, revela Pedro Paulo Soares, coordenador do Museu da Vida da Fiocruz.

“Mas esses são caminhos que precisam ser percorridos com muita cautela”, pondera Roseli de Deus Lopes, diretora da Estação Ciência. “Temos de tomar cuidado para que a nossa exposição não acabe se tornando uma feira de marcas comerciais”, completa Emilio Jeckel Neto, diretor do Museu de Ciências e Tecnologia da PUC do Rio Grande do Sul.

:: Marina Mezzacappa ::

* publicado originalmente na revista eletrônica ComCiência

1 comment 24 Julho 2008

Cientistas estão satisfeitos com os jornalistas, diz estudo

57% dos cientistas estão ‘bastante satisfeitos’ com jornalistas contra somente 6% ‘insatisfeitos’

A maioria dos cientistas está feliz com os jornalistas e, ao contrário do que se acreditava, se sente muito confortável com a imprensa, revelou um estudo divulgado nesta quinta-feira, 10, pela revista Science.

A reportagem diz que a investigação determinou que 57% dos cientistas estão “bastante satisfeitos” com sua relação com os jornalistas e somente 6% disseram estar “bastante insatisfeitos”.

Essa conclusão foi tirada através das respostas de 1.354 cientistas que trabalham em importantes campos de investigação vinculados à epidemiologia e às células-tronco no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha e Japão.

Uma das perguntas básicas foi se os cientistas temiam que suas declarações fossem reproduzidas de forma errada, e se haviam conseguido difundir sua mensagem.

A idéia de que os cientistas se fecham em uma “torre de marfim” e se encontram com a imprensa somente quando não podem evitar não se sustenta, disse Hans Peter Peters, do centro de estudos Forschungszentrum Jülich, da Alemanha.

“Outro preconceito que deve ser erradicado é que os pesquisadores alemães têm dificuldade para se relacionar com os jornalistas e se sentem menos motivados para informar sobre suas pesquisas que seus colegas norte-americanos”, acrescentou.

Em termos mais gerais, o estudo determinou que a interação entre os meios de comunicação e os cientistas não está limitada às figuras de destaque da ciência.

Quase dois terços dos pesquisadores que responderam ao questionário disseram terem sido entrevistados pelo menos uma vez nos últimos três anos.

Quase um a cada três disseram que mantiveram contato com a imprensa ao menos cinco vezes no mesmo período.

O estudo disse que 93% dos cientistas indicaram que um dos grandes fatores que ajudou seu contato com os jornalistas foi “conseguir uma atitude mais positiva do público em relação ao seu trabalho.”

Além disso, 46% disseram que o contato com a imprensa teve um impacto positivo sobre sua carreira, sendo que somente 30% manifestou um resultado negativo.

Mas, por outro lado, um problema para os cientistas foi a falta de controle sobre o resultado de seus contatos com os meios de comunicação.

Nove em cada dez indicou que o principal fator que inibia esse contato era o risco de que suas citações fossem usadas incorretamente.

“Temos que nos perguntar por que essa relação é tão boa, dadas as conhecidas diferenças entre as culturas profissionais da ciência e do jornalismo, os conflitos de interesse e as mudanças que sofre a mensagem científica quando chega aos meios de comunicação”, disse Peters.

Steve Miller, pesquisador do Departamento de Estudos de Ciência e Tecnologia da Universidade de Londres e também jornalista, diz que quando cobre conferências científicas escuta, com freqüência, críticas de alguns que têm problemas com a mídia.

“Por isso me surpreendo com o resultado da investigação de que quando os biomédicos estão sob a lupa do interesse público estão felizes com seus contatos com jornalistas”, disse.

“Isso demonstra que não se deveria acreditar nos contos de terror. Os jornalistas não comem os cientistas no café da manhã”, disse.

* Estadão (publicado dia 10/07)

Add comment 23 Julho 2008

Por que divulgar ciência no Brasil?

“Parte bastante representativa da sociedade está composta por grande número de ‘analfabetos científicos’, que, por não compreenderem o impacto dos avanços científicos e tecnológicos em suas vidas, não conseguem opinar ou tomar decisões sobre os rumos que devem tomar as pesquisas que eles mesmos ajudam a manter com o pagamento de impostos”, declarou a jornalista Alicia Ivanissevich, do Instituto Ciência Hoje, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC), ao apresentar o problema que o Brasil enfrenta e um dos principais motivos que justificam a necessidade de divulgação da ciência no país. Ganhadora, na categoria Jornalismo Científico, do Prêmio José Reis de Divulgação Científica 2008 do CNPq, a jornalista falou sobre a missão de divulgar a ciência no Brasil durante a 60ª Reunião da SBPC, na Universidade de Campinas, São Paulo, nesta terça-feira (15/7).

Para uma platéia de jornalistas, pesquisadores e dirigentes de instituições científicas, Alicia apresentou dados sobre a deficiência do ensino da ciência no país, como os resultados das últimas avaliações nacionais e internacionais para disciplinas científicas, matemática e leitura, como a Prova Brasil, o Enem e o Pisa, onde os brasileiros alcançaram notas baixas e ficaram entre os últimos colocados no ranking dos 57 países estudados.

Em 1961, o médico José Reis, em seu livro Iniciação a Ciência, de 1962, já retratava esta situação: “De tal modo é ainda livresco, pretensioso, estéril o ensino da ciência, que continua a incorrer no vício há tanto estigmatizado de diminuir a originalidade do aprendiz. Porque ciência é, no fundo, originalidade, é iniciativa de investigar. Menos que o simples propagar de um corpo estático de conhecimentos científicos interessa incutir no aluno, pela experiência, a idéia de ciência como ‘processo”.

Diante deste panorama, a jornalista falou sobre caminhos que podem melhorar este quadro, apontando para a missão do jornalista científico, as assessorias de imprensa e dos pesquisadores na divulgação da ciência. “Apesar das dificuldades que todos os profissionais envolvidos na divulgação científica enfrentam num país com as dimensões e a diversidade cultural do Brasil, considero que muito tem sido feito nas últimas décadas, desde a época de José Reis, que era um dos poucos colunistas científicos na década de 1980. E hoje os jornalistas científicos, junto com os pesquisadores, continuam com um importante papel a cumprir: contribuir de forma decisiva para a construção de uma consciência crítica da sociedade brasileira, por meio da divulgação científica”, concluiu Alicia.

Diretamente ligados a essa missão, os jornalistas e pesquisadores que assistiram a palestra interagiram com a ganhadora do prêmio do CNPq, levantando o debate dos problemas que encontram em seus ambientes de trabalho e os caminhos que buscam para resolver. A troca de informações levantou pontos como a falta de material de qualidade que possa ser usado no ensino das ciências, a falta de educadores qualificados e interessados neste ensino e de jornalistas que dêem suporte nessa área, como em assessorias de imprensa das instituições de ciência e tecnologia, que podem divulgar o trabalho que está sendo realizado por seus pesquisadores.

Entre os caminhos apontados, está a necessidade da consciência de compromisso social do cientista para colaborar com o trabalho dos jornalistas que divulgam suas pesquisas para a sociedade e um melhor comprometimento por parte dos jornalistas em fazerem reportagens mais equilibradas, que consigam aproximar mundos distantes, como a ciência e as crianças.

* Assessoria de Comunicação Social do CNPq

Add comment 22 Julho 2008

Jornalistas científicos lançam “Carta de Campina Grande”

Signatários requerem uma participação mais ativa no debate nacional sobre a política nacional de CT&I

Leia a íntegra do documento:

“Nós, jornalistas científicos reunidos em Campina Grande, Paraíba, durante o I Encontro Norte-Nordeste de Jornalismo Científico, nos dias 27 e 28 de junho de 2008, realizado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), com o apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC),

Durante o Encontro, jornalistas e pesquisadores de diferentes instituições que atuam na área de Comunicação Pública da Ciência fizeram uma ampla reflexão sobre a importância do Jornalismo Científico para a formação de uma cultura e educação científica e a participação da sociedade brasileira nos processos decisórios do país.

O I Encontro Norte-Nordeste de Jornalismo Científico projeta-se como um embrião da formação de seccionais e regionais da ABJC, que acaba de completar três décadas de atuação na área.

Considerando o papel estratégico da Comunicação em geral e da Comunicação Pública da Ciência, Tecnologia e Inovação para o desenvolvimento sustentável do país, os jornalistas requerem uma participação mais ativa no debate nacional sobre a política nacional de CT&I e reivindicam:

- Participação nos fóruns oficiais de formulação de políticas públicas de CT&I;

- Manutenção e fortalecimento do Comitê Assessor de Divulgação Científica do CNPq com participação paritária de jornalistas e cientistas no processo de julgamento de projetos de pesquisa (editais) e bolsas;

- Estímulo à ampliação de linhas de pesquisa em Comunicação Pública da Ciência nos cursos de Comunicação Stricto Sensu.

- Financiamento dos órgãos de fomento para ampliação de cursos de Especialização e Extensão para a capacitação de comunicadores da ciência nas regiões Norte e Nordeste; ;o apoio dos órgãos de fomento;

- Estímulo à criação de disciplinas e ou oficinas de Comunicação Pública da Ciência em cursos de graduação em Comunicação;

- Incentivo a Políticas de Comunicação nas universidades, institutos de pesquisa e órgãos de CT&I com a criação e a consolidação de assessorias de comunicação ;

- Políticas específicas para a implementação de bolsas de pesquisa para o campo da Divulgação Científica, contemplando em particular o Jornalismo Cientifico;

- Políticas de incentivo à produção de materiais de Comunicação Pública da Ciência para a melhoria do ensino de ciências no Norte e Nordeste;

- Incentivo à criação de uma Rede de Agências Regionais de Comunicação da Ciência do Norte-Nordeste;

- Incentivo às parcerias entre as universidades e instituições de pesquisa com as TVs Educativas e Universitárias regionais para produção e veiculação de material audiovisual no campo da Comunicação Pública da Ciência;

- Promoção de ação articulada com órgãos que atuam em questões de divulgação e formação de profissionais que trabalham com temas de natureza científica e tecnológica;

- Articulação, ampliação e fortalecimento da organização de um sistema de comunicação pública da CT&I no Norte – Nordeste, em parceria com governos estaduais, municipais, universidades, FAPs, instituições de pesquisa, organizações que produzam e analisem a CT&I;

- Reconhecer e valorizar a importância dos saberes populares no processo de construção do conhecimento científico nas políticas de popularização da ciência e tecnologia.

Diretoria da ABJC
Cidoval Moraes (organizador do Encontro)
Campina Grande, Paraíba, 29 de junho de 2008”

* Jornal da Ciência

Add comment 19 Julho 2008

Moção em prol de mecanismo permanente de fomento à divulgação científica

A atuação do Comitê Temático do CNPq na área está suspensa e, portanto, os projetos estão sem acompanhamento permanente para avaliação

Reunidos na Assembléia da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência (ABCMC), na 60a Reunião Anual da SBPC, divulgadores da ciência de diversos estados brasileiros redigiram uma moção pedindo ao ministro da C&T, Sergio Rezende, a manutenção de mecanismos permanentes no CNPq para o fomento da divulgação científica.

A moção será apresentada e votada na Assembléia Geral Ordinária dos Associados da SBPC, nesta quinta-feira, em Campinas.

A medida é uma reação à intenção do CNPq de extinguir os seus quatros comitês temáticos, incluindo o Comitê Temático da Divulgação Científica. A atual diretoria do órgão, empossada em junho do ano passado, decidiu acabar com esses comitês pois eles estariam criando um certo desconforto na comunidade científica, principalmente pelo fato de angariar bolsas de produtividade.

Como sofreu muita pressão por parte dos profissionais e pesquisadores dedicados à divulgação científica, a diretoria do CNPq deu um prazo, até novembro deste ano, para o comitê apresentar um relatório propositivo ao órgão.

“O comitê não foi extinto por causa da pressão, mas ele não existe, não está tendo função real”, afirmou Ildeu de Castro Moreira, diretor do Departamento de Difusão e Popularização de Ciência do MCT e membro do comitê.

Moreira sugeriu que se proponha a criação de uma nova estrutura dentro do CNPq que se responsabilize pelo lançamento de editais e avaliação de propostas na área, deixando a questão das bolsas de produtividade a cargo de um outro departamento.

O primeiro passo nessa direção foi justamente a elaboração de uma moção a ser votada na Assembléia da SBPC. Leia a seguir o texto do documento:

“Nos últimos anos têm crescido significativamente os programas de difusão e popularização da ciência no País, promovendo uma exploração ativa, o envolvimento pessoal, a curiosidade, o uso dos sentidos gerando a indagação e o interesse pela ciência. Este crescimento está explicitamente relacionado com a criação do Departamento de Popularização e de Difusão da Ciência e Tecnologia vinculado à Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (SECIS) do MCT e do Comitê Temático de Divulgação Científica do CNPq. Como a atuação efetiva deste Comitê está suspensa, os projetos para esta área estão sem acompanhamento permanente para avaliação.

Desta forma, professores, pesquisadores e dirigentes de Centros e Museus de Ciências reunidos durante a 60º Reunião Anual da SBPC de 13 a 18 de julho de 2008 vêm solicitar ao Ministro da Ciência e Tecnologia, Dr. Sergio Machado Rezende, a manutenção de mecanismo permanente no CNPq para analisar, julgar, selecionar, acompanhar e financiar projetos de pesquisas, eventos e outras atividades de divulgação científica, bem como a formação de recursos humanos, que contemplem instituições e profissionais dedicados consistentemente à Divulgação e Popularização da Ciência e Tecnologia.”

* Jornal da Ciência (Carla Almeida)

Add comment 18 Julho 2008

Fabíola Oliveira: Temos uma formação muito ruim em jornalismo

A vencedora do Prêmio José Reis de Divulgação Científica de 2002 critica o caráter tecnicista da formação jornalística atual e diz que o jornalista de ciência aprende mesmo é no dia a dia

Passadas mais de três décadas da criação da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e dos primeiros cursos acadêmicos na área, ainda há pouca oferta para se formar bons jornalistas de ciência no Brasil.

A constatação foi feita durante simpósio sobre formação e pesquisa em jornalismo científico realizado nesta terça-feira, na 60ª Reunião Anual da SBPC em Campinas.

Coordenadora do encontro, a jornalista Maria das Graças Caldas, pesquisadora da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), mostrou dados de um mapeamento realizado em 2005, que identificou, em um total de 304 cursos de jornalismo em todo o Brasil, apenas 31 disciplinas em jornalismo científico, sendo que 20 delas oferecidas por instituições privadas.

Caldas está trabalhando em um novo levantamento para saber o quanto esse quadro mudou, mas já adiantou que o número de disciplinas em jornalismo científico não deve ter acompanhado o crescimento do número de cursos de jornalismo. Mas ela espera que pelo menos a proporção de cursos oferecidos por universidades públicas na área tenha aumentado.

Fabíola Oliveira, com longa trajetória no jornalismo científico, autora de livro no campo e ex-coordenadora do curso de jornalismo da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), criticou os cursos atuais de jornalismo por darem cada vez mais espaço a disciplinas técnicas, em detrimento de matérias teóricas básicas necessárias para formar um jornalista mais crítico e esclarecido.

“Comprar equipamentos é mais barato do que contratar bons professores”, disse Fabíola no encontro. O resultado disto é uma formação muito ruim em jornalismo de maneira geral, acrescentou.

No caso mais específico da formação em jornalismo de ciência, Fabíola também chamou atenção para a falta de oferta na área, apesar do surgimento de algumas iniciativas mais recentes.

Ela citou como exemplos positivos o curso de especialização em jornalismo científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), na Unicamp, que já formou 240 alunos, e o novo curso de mestrado em divulgação científica criado pelo laboratório, que inicia a primeira turma este ano.

Apesar dessas iniciativas pontuais, “ainda estamos longe de ter uma massa crítica de jornalistas que se interessam e se formam na área”, afirmou Fabíola.

Para a jornalista, a má distribuição dos cursos existentes, concentrados na região sudeste, também é um problema, mas que reflete a desigualdade regional do país. Nesse sentido, Fabíola destacou a importância dos cursos à distância e a necessidade de se levar iniciativas de formação para todo o país.

“Enquanto isto não acontecer, vamos ter pouca gente dedicada ao jornalismo de ciência”.

Diante da falta de oferta de formação – em termos de quantidade, qualidade e distribuição geográfica –, a experiência do dia a dia do jornalista de ciência acaba sendo a mais importante, ressalta Fabíola.

“Cabe ao jornalista se especializar por conta própria, lendo muito, pesquisando, participando de encontros científicos e de eventos como a Reunião Anual da SBPC.”

Participou também do simpósio Vera Regina Toledo, da Unicamp, que apresentou a experiência do Labjor e os conceitos de cultura científica difundidos em seus cursos e publicações.

* Jornal da Ciência (Carla Almeida)

Add comment 17 Julho 2008

Mast leva Ciência e cinema para feira em Campinas

Museu de Astronomia convida crianças a fazer filme de animação durante a SBPC Jovem 2008, que acontece até 18 de julho

O Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) irá unir Ciência e cinema na SBPC Jovem 2008, feira destinada a estudantes do ensino médio e fundamental que integra a 60ª Reunião Anual da SBPC.

O encontro foi aberto neste domingo e segue até dia 18 de julho, na Unicamp. Durante a oficina “Ciência Animada”, um dos destaques da participação do Museu no evento, crianças terão a oportunidade de produzir um filme de animação sobre os mitos acerca da criação do mundo. Tudo será feito com massa de modelar. A atividade será realizada no dia 16, às 14h.

Outra atividade do Mast para os jovens é o “Vivendo no Sistema Solar”, que será realizada dia 17, às 9h. Os participantes vão fazer modelos em escala do sistema planetário, o que torna mais fácil a comparação entre os diâmetros e as distâncias dos astros.

A terceira oficina, “Contando Mitos: Sol, o deus Hélio”, acontece dia 16, às 16h e se destina a estudantes de até 11 anos. Eles construirão os próprios Relógios Solares, após aprenderem sobre as características do Sol, a importância do astro para a rotação terrestre e para o fenômeno dos dias e das noites. Também será feita uma relação entre a mitologia e o conhecimento científico.

O Mast tem ainda um estande na ExpoT&C, espaço da Reunião da SBPC reservado para a exposição de realizações em Ciência, tecnologia e inovação desenvolvidas por universidades, institutos de pesquisa e empresas. Além de apresentar a instituição e as atividades do Mast, o estande abrigará a venda de livros de pesquisadores do Museu e a realização da oficina “Brincando com a Ciência”.

* Jornal da Ciência (Com informações da Assessoria de Comunicação do Mast)

Add comment 14 Julho 2008

Paulistas se interessam por Ciência, apesar de “pouco informados”

Análise é resultado de um estudo que será apresentado por Carlos Vogt na 60ª Reunião Anual da SBPC

Os moradores do estado de São Paulo se interessam mais por Ciência e Tecnologia (C&T) do que por temas como Política, Economia e Cultura. A conclusão faz parte de pesquisa inédita, cujos resultados serão apresentados por Carlos Vogt, Secretário de Ensino Superior do Estado de São Paulo, no Simpósio “Sociedade e Percepção Pública da Ciência”, na quinta-feira (17), às 10h30, durante a Reunião da SBPC, aberta neste domingo e que segue até dia 18 de julho, na Unicamp.

O estudo Percepção pública da Ciência e tecnologia: uma abordagem metodológica para São Paulo consultou 1825 pessoas de 33 municípios do estado, incluindo a capital. Do total, 63,4% dos entrevistados revelaram que se interessam muito ou simplesmente se interessam pelo tema Ciência e Tecnologia, mais do que Política (21,1%), Economia e Empresas (43,3%) e Cinema, Arte e Cultura (58,7%). À frente de Ciência e Tecnologia, estão Alimentação e Consumo (83,3%), Medicina e Saúde (80,9%), Meio Ambiente e Ecologia (76%) e Esportes (65,4%), sendo que as três primeiras são áreas claramente correlatas à Ciência e tecnologia. O interesse por Ciência e tecnologia e por temas relacionados está diretamente ligado, de acordo com os pesquisadores.

O trabalho está em andamento por uma equipe de pesquisadores do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp, coordenados pelo por Vogt, e constituirá um dos capítulos da próxima edição de Indicadores de C,T&I em São Paulo, a ser publicada ainda este ano pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Informação científica

A pesquisa verificou ainda que nível de informação, por auto-valoração, é alto para as áreas consideradas correlatas à C&T, como Alimentação e consumo, em que 72,1% dos entrevistados responderam que se consideram “muito informados” e “informados” sobre o tema. O nível alto se mantém em Medicina e saúde (63,6%) e Meio ambiente e ecologia (61,4%). Segundo os pesquisadores, os dados mostram que esses temas não apenas despertam interesse, mas levam as pessoas a consumirem informações a respeito deles, na busca de aumentar seu conhecimento e também na tentativa de encontrar respostas para problemas a eles relacionados.

Mas quando se trata de C&T exclusivamente, o que se observa é um nível baixo de adesões para a resposta Muito informado: 105 pessoas, ou 5,8% dos respondentes, consideraram-se muito informados sobre o tema. Um número maior, de 722 pessoas, ou 39,6%, é observado para a resposta Informado em C&T. “O fato sugere que, apesar do interesse, nem sempre as pessoas têm um nível de informação compatível”, ponderam os autores do trabalho.

De acordo com Carlos Vogt, coordenador da pesquisa, a percepção pública de C&T está vinculada à cultura geral do indivíduo e aos estímulos que recebe dos meios de comunicação. Para ele, a inserção dos temas de C&T na sociedade é um processo amplo, de ordem cultural, que ele denomina de cultura científica.

Interesse e informação em C&T é um dos quatro eixos de análise da pesquisa em andamento no Labjor sobre indicadores de percepção pública da Ciência. Os outros três eixos são: valorações e atitudes sobre C&T; apropriação individual e social de C&T e cidadania e políticas de C&T.

Indicadores de cultura científica

A busca por indicadores que permitam avaliar a percepção e compreensão pública da Ciência começou há trinta anos, impulsionada pelos movimentos sociais críticos iniciados logo após a Segunda Guerra Mundial e intensificados na década de 1960. No Brasil, a primeira pesquisa foi realizada em 1987, por solicitação do CNPq e através do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast). Em 2006, uma nova pesquisa nacional sobre a percepção do brasileiro quanto à C&T foi realizada pelo MCT.

De acordo com os pesquisadores do Labjor, tão importante quanto estudar a percepção pública da Ciência e da tecnologia nos cidadãos, com o objetivo, por exemplo, de se guiar políticas públicas, é criar instrumentos que permitam comparações nacionais e internacionais desses indicadores.

Por isso, o trabalho do Labjor integra um projeto maior, organizado pela Rede Ibero-Americana de Indicadores de Ciência e Tecnologia (RICYT) e pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), realizado a partir de 2007. Os dados da cidade de São Paulo serão comparados com outras seis grandes cidades da Iberoamérica: Bogotá (Colômbia), Buenos Aires (Argentina), Caracas (Venezuela), Madrid (Espanha), Panamá (Panamá) e Santiago (Chile).

O esforço da equipe do Labjor para realizar um trabalho de percepção pública da Ciência metodologicamente integrado começou no início da década. Em 2003 e em 2004, o Labjor, com apoio da Fapesp, realizou uma pesquisa conjuntamente com Espanha, Argentina e Uruguai.

Os resultados foram publicados em português e espanhol no livro Percepção Pública da Ciência- Resultados da Pesquisa na Argentina, Brasil, Espanha e Uruguai, em 2003, e no Indicadores de C,T&I em São Paulo, da Fapesp, em 2005.

* Jornal da Ciência (Assessoria da Secretaria de Ensino Superior do Estado de SP)

Add comment 14 Julho 2008

Imprensa que ladra

Aos poucos, os cientistas encaram mais os repórteres

“Ciência que ladra” é o nome sensacional de uma série de divulgação científica dirigida para a Siglo XXI Editores da Argentina por Diego Golombek.

Único detentor sul-americano de um prêmio IgNobel (por ter curado jet-lag com Viagra em… hamsters), Golombek é um pesquisador sério de ritmos circadianos e grande comunicador. Dá tempo integral para mostrar que a ciência, apesar das aparências, não morde.

Golombek foi a Cambridge (EUA) receber em pessoa e com galhardia seu IgNobel. O prêmio satírico faz a festa dos jornalistas de ciência, que se lançam sobre ele como uma matilha. Mas o biólogo portenho não tem medo de repórter.

Golombek faz parte de uma estirpe de cientistas que, de Carl Sagan a Richard Dawkins, abraça a publicidade com entusiasmo -mesmo que isso implique encarar jornalistas. Aos poucos, seu exemplo se espalha entre pesquisadores. Se não ainda (ou não tanto) no Brasil e na Argentina, ao menos nos cinco países que lideram a produção científica mundial: Alemanha, EUA, França, Japão e Reino Unido.

A prova está na edição de anteontem do periódico americano “Science”. Um grupo coordenado por Hans Peter Peters, do Centro de Pesquisa de Jülich (Alemanha), fez o primeiro estudo multinacional sistemático do proverbial mau relacionamento entre pesquisadores e jornalistas. Para surpresa da equipe, descobriu que eles nunca se deram tão bem.

Responderam ao questionário de Peters 1.354 cientistas com artigos publicados em periódicos de renome, durante os três anos anteriores (2002-2004), nas áreas de epidemiologia (648 ) e células-tronco (706). Dois terços foram entrevistados por jornalistas pelo menos uma vez.

Pasme: 57% dos respondentes se disseram “predominantemente satisfeitos” com o resultado de seu último contato com a imprensa, e só 6% “predominantemente insatisfeitos”. Considerando o impacto de toda a relação sobre suas carreiras, 46% declararam ter sido “mais para positivo” e apenas 3% “mais para negativo”.

Há pequenas variações entre os países. No Japão, o casamento vai menos bem que nos outros países, mas nada que ponha pesquisadores e jornalistas à beira do divórcio. O que não deixa de surpreender, porque a tônica dos estudos sobre divulgação científica tem recaído sobre as dificuldades no relacionamento -sensacionalismo da imprensa, pedantismo e distanciamento dos cientistas, e por aí vai.

Peters e seus colaboradores sondaram os pesquisadores sobre essas relações com a ajuda de 16 frases, positivas e negativas -de “os jornalistas fizeram as perguntas certas” a “fui tratado com pouco respeito”. De ponta a ponta, obtiveram avaliação preponderantemente positiva.

Baseando-se em outras respostas, os autores concluem que os cientistas cada vez mais reconhecem os benefícios de relacionar-se com a imprensa. A razão mais citada (93%) é genérica: induzir “uma atitude mais positiva do público diante da ciência”. Mas parece pesar muito, também, a chance de obter mais visibilidade para o próprio trabalho -tanto entre pares quanto entre financiadores.

Dominique Brossard, co-autora do estudo e professora de jornalismo da Universidade de Wisconsin em Madison (EUA), conclui: “A pesquisa mostra que os cientistas encaram interações com jornalistas como necessárias. Não precisamos mais conquistar os cientistas. Passamos desse ponto”. O Brasil não tem Nobel nem IgNobel, mas ainda chega lá.

MARCELO LEITE é autor de “Promessas do Genoma” (Editora Unesp, 2007) e de “Brasil, Paisagens Naturais – Espaço, Sociedade e Biodiversidade nos Grandes Biomas Brasileiros” (Editora Ática, 2007). Blog: Ciência em Dia. E-mail: cienciaemdia.folha@uol.com.br

* Publicado no jornal Folha de S. Paulo

Add comment 13 Julho 2008

Paralelas entrevista Wilson Bueno

Wilson Bueno é um dos maiores nomes brasileiros quando se fala em jornalismo científico. Jornalista, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP, professor de Jornalismo da ECA/USP, editor do Portal do Jornalismo Científico on Line e atual presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico – ABJC (www.abjc.org.br), escreveu os livros Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente, Comunicação Empresarial: uma Leitura Crítica e Jornalismo Científico no Brasil: Aspectos Teóricos e Práticos. Preocupa-se não apenas com a divulgação científica em si, mas especialmente com a formação dos divulgadores científicos – e é isso que ele discute na entrevista abaixo.

PARALELAS - Qual a importância de uma formação para se divulgar a ciência?
WILSON BUENO – A cobertura de ciência e tecnologia pressupõe conhecimentos básicos de história, filosofia e sociologia da ciência, do sistema de produção científica e em particular das relações nem sempre claras entre ciência e tecnologia, poder econômico, poder político, militar etc. É fundamental, portanto, uma formação sólida para que o jornalista/divulgador não se torne refém das fontes, muitas delas comprometidas com interesses extra-científicos.

PARALELAS – Há de fato uma tendência atual de crescimento no oferecimento desses cursos – e na procura por eles? Por quê?
BUENO – Sim. E isso acontece por dois motivos: a) as universidades e o mercado já se deram conta de que há demanda por esta formação, pela importância crescente da ciência e tecnologia na sociedade moderna; b) há potencialmente grande espaço para o crescimento do mercado para divulgadores científicos, especialmente no Brasil, onde temos um déficit importante de publicações especializadas, de editorias específicas na mídia etc. Temas contundentes e com grande cobertura da mídia como transgênicos, nanotecnologia, células-tronco, mudanças climáticas etc. contribuem para reforçar este cenário.

PARALELAS –
O que há de específico na formação de divulgadores científicos?
BUENO – Essa formação exige: conhecimento menos do que trivial do sistema de produção científica, de temas que estão na agenda de debates e das peculiaridades da divulgação científica (uso de fontes especializadas, interação com o público leigo, o que implica na formatação de conteúdos adequados a determinadas audiências) e, sobretudo, a meu ver, a consciência da importância do processo de democratização do conhecimento e do papel do divulgador na alfabetização científica da população.

PARALELAS – Como tem sido pensada essa formação?
BUENO – Ela tem sido tímida, quase inexistente em nosso País. Menos de 10 % dos cursos de Jornalismo tem alguma disciplina ou conteúdo que privilegiam este campo e, portanto, temos ainda muito a avançar. Certamente, faltam também professores e espaços nas grades curriculares dos cursos.

PARALELAS - Há muita crítica aos profissionais que divulgam ciência e parte dela é depositada em sua formação. O que tem sido discutido a esse respeito?
BUENO - É verdade e, na maior parte dos casos, esta crítica faz sentido porque não é possível cobrir ciência, com toda a sua complexidade, ethos específico etc sem uma preparação básica, o que implica nos conhecimentos já mencionados nas respostas anteriores. Não se pode cobrir ciência como se cobre futebol porque o processo de apuração precisa ser refinado,  bom domínio de conceitos, contextualização dos fatos, resultados e descobertas; a identificação precisa das fontes etc. Na prática, a formação não está sendo mal realizada: é ainda pior, nem está sendo feita.

PARALELAS – Que críticas podem ser feitas aos cursos de formação em divulgação científica no Brasil? Que lacunas e problemas apresentam?
BUENO - Como mencionei na resposta anterior, há poucos cursos com essa especificidade e nem sempre atendem aos objetivos desta formação. Há duas tendências: ou se prioriza apenas o processo de produção jornalística ou se dá apenas ênfase ao campo da ciência e da tecnologia, com pouca atenção ao processo de divulgação. O pior equívoco é não politizar (no bom sentido) esta formação e se acreditar que a divulgação científica é apenas uma forma de tradução do discurso científico, relegando ao divulgador o papel de “taquígrafo” ou “ventríloco” de cientistas/pesquisadores. O jornalismo científico se baseia num discurso próprio, construído pelos jornalistas/divulgadores a partir das fontes, que devem ser confrontadas, contextualizadas etc. Há interesses em jogo e eles precisam ser descobertos, depurados, revelados. A formação do divulgador científico não pode inserir esta perspectiva ingênua e perigosa de que ciência e tecnologia não têm dono e que não há interesses poderosos agindo na produção, financiamento e divulgação da ciência e tecnologia. Esta história de ciência e tecnologia a serviço da humanidade já não vinga mais: há financiadores, patrocinadores etc. Pena que a imprensa ainda contempla esta cobertura com ingenuidade. Precisamos formar jornalistas/divulgadores científicos com uma perspectiva crítica para não ficarmos na mão das Monsantos, Bayers, Aracruzes, Novartis da vida.

PARALELAS – Os cursos de formação em divulgação científica no Brasil seguem uma tendência mundial? Em que difere ou se aproxima da formação em outros países?
BUENO – Não seguimos outros modelos, mesmo porque, como já afirmei, pouco formamos os nossos divulgadores científicos. Os programas dos cursos são formatados a partir de experiências de grupos ou de pessoas (os coordenadores dos cursos), levando em conta, sobretudo a disponibilidade dos professores, seus interesses e idiossincrasias. Não há uma proposta padrão para esses cursos no Brasil e não sei mesmo se essa seria a saída. Temos demandas em função das nossas diferenças regionais e acredito que um programa pensado para a realidade Amazônia não deve ser exatamente igual ao que temos aqui em São Paulo porque há demandas locais. Mas certamente teríamos que discutir isso porque não é razoável propor cursos sem atentar para as demandas e as exigências de um país emergente. Sou de opinião de que não devemos formar jornalistas científicos da mesma maneira que os americanos ou alemães. Temos uma pauta própria que precisa ser contemplada também.

PARALELAS – Em sua opinião, qual o futuro desses cursos – e dos especialistas que formam – no país?
BUENO – Os cursos ainda estão por vir (são poucas as experiências que temos) e julgo que, se eles forem propostos levando em conta as demandas do mercado, atendidas as exigências para a formação básica de um divulgador científico, poderão contribuir decisivamente para o aumento da massa crítica na área. Na prática, isso já está acontecendo e muitos de nossos divulgadores científicos (sobretudo os jornalistas por formação) têm buscado agregar conhecimentos com cursos de especialização, mestrado e doutorado.  O mercado brasileiro na área do jornalismo especializado tende a crescer (agricultura, biotecnologia, energia, meio ambiente etc) tende a crescer e inclusive acredito que esses divulgadores/jornalistas bem formados poderão , eles próprios, desenvolver projetos próprios, estimulando esse crescimento. Muitos dos bons projetos de divulgação científica no futuro não partirão da indústria da mídia ou das editoras que aqui estão, mas de novos empreendedores, que certamente desenvolverão propostas novas, criativas, multimídia, afinadas com as novas demandas e expectativas. Acredito firmemente nisso. O importante é formar divulgadores científicos com este perfil e não adestrar jornalistas que irão apenas repetir essas velhas fórmulas de cobertura. O meu receio é que os cursos de divulgação científica sigam o modelo tradicional e que tornem os divulgadores refém das fontes. A cobertura de ciência e tecnologia precisa ser problematizada, politizada, não estamos aqui para dar aulas de ciência. É um outro universo, mas parece que, sobretudo muitos colegas da Academia (jornalistas e pesquisadores) acreditam que esse deve ser o seu papel. Outra questão: não podemos tornar esta área exclusiva dos jornalistas profissionais, devemos estar libertos pelo menos nessa área dos ranços corporativistas, convocando todos aqueles que possam contribuir para a democratização do conhecimento. Mas como jornalista continuo achando que os profissionais de imprensa têm um papel importante a desempenhar e que esta formação deveria se iniciar já nos cursos de graduação. Não se trata apenas da prática do jornalismo científico, mas de sua pesquisa e reflexão. A nossa formação não deve ser confundida com adestramento, não devemos formar “focas” em jornalismo científico, produtores de leads e subleads, mas sujeitos pensantes. Caso contrário, repetiremos o modelo da Abril que convoca os jornalistas da Abril Jovem para produzir matérias pagas da Aracruz e da Petrobrás na Superinteressante.

:: Chris Bueno ::

1 comment 11 Julho 2008

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