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Instituições científicas aprovam trabalho anti-desmatamento do governo brasileiro

Desde janeiro deste ano o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) tem travado um duelo científico e político com o governo estadual do Mato Grosso no que diz respeito ao desmatamento na Amazônia. A discussão se deve ao grau de confiabilidade do sistema Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) que mede, através de satélites, todas as etapas do processo de devastação da floresta. Enquanto a sociedade aguarda o desenrolar dos fatos, algumas instituições científicas de renome no Brasil e no exterior declararam em março total confiança no sistema brasileiro.

O entrave começou em janeiro quando o Inpe divulgou um alerta de desmatamento na Amazônia que dizia que mais de 1000 quilômetros quadrados de floresta por mês foram desmatados nos último trimestre de 2007. O instituto salientou o fato de que o desmatamento na região, que caía nos últimos anos, ter grandes possibilidades de aumentar 10% até o fim de 2008.

Comparação entre área rastreada pelos satélites do INPE e paises europeus.
Fonte: INPA

Dias depois do alerta o Ministério do Meio Ambiente publicou uma lista com os 36 municípios que mais desmataram em 2007. A lista obtida com base nos dados do Deter possui 19 cidades mato-grossenses (52,7%). Com a inclusão de seus nomes à lista, tais municípios passaram a sofrer um controle anti-desmatamento mais rígido por parte do Ibama. Alguns locais foram até mesmo impedidos de desmatar.

Incrédulos com os resultados apontados pelo Deter, técnicos do governado do Mato Grosso iniciaram uma série de visitas de campo às cidades enquadradas no trabalho de rastreamento do Inpe. Essas visitas resultaram em um relatório publicado em março que afirma que dos 505 pontos de desmatamento apresentados pelo Inpe no estado, apenas 6,5% são realmente recentes.

Para o governador do Mato Grosso Blairo Maggi as derrubadas apontadas pelo Inpe como recentes são antigas, resultado de incêndios florestais ou de interpretações equivocadas das imagens de satélite. Com base no relatório feito por sua equipe, Maggi pediu ao presidente Lula e à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, a retirada dos municípios do Mato Grosso da lista dos que mais desmataram.

O Inpe se defende das acusações de Maggi. O climatólogo do Instituto Carlos Nobre diz que os dados obtidos através do Deter foram muito bem checados e “os desmatamentos observados pelo satélite no segundo semestre de 2007 são bastante superiores aos observados no segundo semestre de 2006”.

Estando as cartas expostas na mesa, a academia começou a expressar sua opinião. Em nota oficial o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Marco Antônio Raupp, diz que “os números alarmantes divulgados no início deste ano [pelo Inpe] foram verificados com rigor por seus pesquisadores e foram resultados de inúmeras checagens. A SBPC confia na seriedade e capacidade técnica dos profissionais na elaboração destes dados e acredita incondicionalmente na idoneidade da instituição”.

Após uma reunião científica ocorrida dia 14 de março com o presidente do Inpe, Gilberto Câmara, a Associação Brasileira de Ciências (ABC) também expressou seu apoio ao trabalho feito pelo Instituto. Em seu site na internet a associação diz ter “total confiança na capacidade e integridade científica” do mesmo.

Outro a apoiar a credibilidade das operações do Deter é o ministro da Ciência e Tecnologia Sérgio Rezende. Já na época em que foi publicado o alerta de desmatamento ele disse ter de 95% a 97% de segurança de que os dados estão corretos. “Em ciência nunca há 100% de certeza”, acrescenta.

Um último aliado de peso do Inpe na batalha pela comprovação da seriedade do seu trabalho veio da renomada revista científica Nature. Na edição de 13 de março foi publicado um editorial, uma matéria e uma entrevista (com Carlos Nobre) sobre a questão do desmatamento e do trabalho feito pelo Inpe. No editorial a revista diz que “em muitas maneiras o Brasil está mais bem equipado para lidar com o problema [do desmatamento] do que outras nações com floresta tropical. Cientistas do INPE foram pioneiros em métodos e tecnologias para rastrear desmatamento na Amazônia, dando ao país uma capacidade sem paralelo para monitorar suas florestas desde o espaço”.

Falso positivo do Deter

Dentre o que os satélites do sistema Deter realmente enxerga, um dos pontos acusados como falho pelo governo do Mato Grosso é o falso positivo. O relatório publicado no mês passado por técnicos do governo daquele estado diz que 14% da área que aparece como desmatada nos relatórios do Inpe estão, na verdade, intactas.

O Instituto se defende. Gilberto Câmara diz que foi feita uma verificação recente no mês de fevereiro na região de Sinop, em Mato Grosso. Lá foram checados 40 pontos indicados pelo Deter como focos de desmatamento e, segundo ele, identificou-se 100% de acerto. “O que vimos foi caminhão de madeira sendo carregado em período em que não se desmata, coberto com lona preta para tentar evitar a captação por satélite. Vimos a utilização do “correntão”, que são tratores com correntes que fazem um arrastão dos restos da queimada para limpar o campo para pastagem. Estamos, portanto, bastante tranqüilos quando aos resultados apresentados, pois nosso trabalho de campo mostra que o Deter está cumprindo sua missão”, concluiu Câmara.

:: Luiz Paulo Juttel ::
* Com colaboração de Elisa Oswaldo-Cruz.

Add comment 5 Maio 2008


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O blog Paralelas é um espaço de reflexão e de debate acerca de temas relacionados à comunicação, à ciência e à cultura, criado e alimentado pelos alunos do curso de especialização em jornalismo científico do Labjor/Unicamp

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