VIDA SINTÉTICA versus VIDA NATURAL?
31 Janeiro 2008
Muitos cidadãos comuns, apesar de atentos às noticias dos cadernos de ciências, dos mais variados meios de comunicação, irão se sobressaltar com os rumos que as ciências biológicas deverão tomar daqui para frente.
Certamente pensar na área de atuação da Biotecnologia, ou mais precisamente, do DNA Recombinante, leva nossas mentes ao limite do imaginável. Entretanto, quando as mentes são de pesquisadores, estes limites passam a ser preocupantes para o resto da população, incluindo aí outros pesquisadores.
Na edição on-line da Science de 24 de janeiro, com o título Complete Chemical Synthesis, Assembly, and Cloning of a Mycoplasma genitalium Genome, foi oficialmente noticiada a construção do genoma completo da bactéria Mycoplasma genitalium.
Mesmo sendo a menor bactéria de vida livre, comumente encontrada no trato urinário, o aspecto preocupante do relato, consiste nos possíveis rumos que as ciências biológicas deverão tomar.
A equipe de pesquisadores está liderada por Hamilton O. Smith, premiado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1978, por estudos com enzimas que modificam as moléculas gigantes do ADN. Atualmente trabalhando na empresa de Biotecnologia J. Craig Venter Institute, na cidade americana de Rockville, sua equipe descreveu como o genoma contendo 582.970 pares de bases foi construído. Partindo de fragmentos de DNA, previamente encomendados a empresas de biologia molecular dos Estados Unidos e Alemanha, estas peças foram “coladas” e intercaladas com marcadores para diferenciá-las de seqüências naturais similares, uma espécie de “made by man”. E finalmente inseridas em uma levedura, o conhecido Saccharomyces cerevisiae, para a sua completa síntese.
Dentre os pesquisadores da equipe, vamos também encontrar John Craig Venter, o fundador do instituto que leva o seu nome, bem como do The Institute for Genomic Research (TIGR), e listado pelo Time Magazine como uma das 100 mais influentes personalidades do mundo em 2007 e o não menos renomado Daniel G. Gibson.
Em uma entrevista por e-mail ao magazine Scientific American, este último pesquisador comentou que, na realidade, este experimento finaliza a 2ª etapa de um plano maior que é a construção de um organismo vivo. Experimentos para a 3ª e última etapa do projeto já se encontram em andamento.
“O último passo é demonstrar que o que eles sintetizaram é biologicamente ativo”, relata ao Scientific American Eckard Wimmer, um biologista molecular da Stony Brook University, em NY, que possui renomada experiência na construção do vírus sintético da poliomielite, o primeiro vírus sintético construído. “Infelizmente, esse passo, que ainda falta ao grupo, é muito crítico”.
Este vírus sintético foi construído em 2002 e quando inoculados em camundongos, provocaram a paralisia e morte dos mesmos. Entretanto, como muitos pesquisadores não consideram os vírus como organismos vivos, estes estudos não são aceitos como a “criação de uma vida sintética”.
Entretanto, se conseguirem sucesso, a Biotecnologia estará sendo suplantada pela nascente Biologia Sintética. Para os autores do artigo, bem como para os simpatizantes, os novos organismos made-by-man irão solucionar todos os grandes males da sociedade, desde o aquecimento global até curas de doenças até então incuráveis, como o famoso e antigo conhecido da humanidade, o câncer.
Certamente um opositor destas novas tecnologias acrescentaria que, a única pressuposta função destes organismos sintéticos, seria remediar o que a ciência já produziu, como o aquecimento global, o aumento na incidência do câncer etc.
Um outro aspecto interessante desta pesquisa é que ela foi financiada por instituições de objetivos comerciais, e privados.
A partir de agora, algo irá mudar naqueles atentos leitores de novidades em ciência. Mesmo conscientes da importância das discussões sobre organismos transgênicos, células-tronco e outras novidades da biotecnologia, certamente já não deverão acreditar que a ciência deva caminhar sem qualquer questionamento da sociedade, baseada no velho argumento de que a ciência é uma atividade nobre, direcionada unicamente a propiciar o bem estar da sociedade que a financia.
A partir de agora, os atentos leitores deverão também passar a tomar atitudes frente ao “sopro divino” da Ciência.
:: Hércules Menezes ::
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