Brasil ainda inova pouco
31 Janeiro 2008
Inovação é uma dos termos mais em evidência atualmente quando se pensa em ciência e tecnologia. Contudo, no Brasil, ainda são poucas as empresas que de fato incorporaram esse conceito no seu dia-a-dia. Na entrevista abaixo, Newton Hirata, professor da Academia da Força Aérea e autor da tese Demandas Empresariais em Políticas de Ciência Tecnologia e Inovação no Brasil a Partir dos Anos 1990, defendida em 2007 na Universidade de São Paulo, analisa o tema da perspectiva das demandas empresariais.
Paralelas: O que motivou sua tese de doutorado?
Newton: De uma forma geral, o que motivou foi a tentativa de entender um pouco melhor como se dá a relação entre governo e empresa no que diz respeito às necessidades do setor empresarial para o desenvolvimento da inovação tecnológica. De uma forma mais específica, buscou-se investigar as principais demandas do setor empresarial e em que medida elas têm sido atendidas.
A literatura especializada ressalta não somente o papel central da empresa no processo de inovação, uma vez que, em geral, é lá que ocorre a inovação. Destaca também a relevância da articulação dos diferentes atores, sobretudo empresas, governos, universidades e centros de pesquisa.
Conhecer a perspectiva do usuário das políticas públicas para inovação pode contribuir para a qualidade e efetividade das políticas. Quando formuladas isoladamente pela burocracia estatal com ou sem o apoio da academia, mas sem o envolvimento do setor empresarial, o resultado é uma visão estanque do processo o que pode levar a uma menor eficiência da utilização dos recursos.
Por outro lado, conhecer a visão de quem está focado no mercado e vive a realidade e o desafio de enfrentar a concorrência a cada dia, muito mais do que criar políticas protecionistas, pode significar um aumento da competitividade das empresas e do país. Além disso, um trabalho integrado de formulação de políticas pode gerar a sinergia necessária para se evitar desperdício de recursos e duplicação de esforços.
P: Quais são as principais demandas do setor privado?
N: Em primeiro lugar, mais incentivos fiscais e financeiros, o que por si só, não são suficientes. Além da ausência, ou dos parcos recursos disponíveis para inovação há uma crítica quanto à instabilidade dos programas e políticas. O contingenciamento dos fundos setoriais, por exemplo, é uma das grandes críticas do setor empresarial. Projetos de Pesquisa & Desenvolvimento, além de necessitarem de investimentos consideráveis, exigem um horizonte temporal relativamente grande e estão associados a riscos elevados. Portanto, mudanças constantes e a falta de previsibilidade acabam inibindo iniciativas de se investir em inovação.
Dada a incerteza elevada em projetos de inovação, há também uma demanda por instrumentos de compartilhamento dos riscos entre setor público e privado. Bem operacionalizados, poderiam contribuir para iniciar e fortalecer no meio empresarial uma cultura voltada para inovação. Além disso, políticas de indução envolvendo setores industriais, universidades e centros de pesquisa poderiam dinamizar a inovação em determinadas áreas.
Além da descontinuidade dos programas e políticas, outra crítica é quanto à excessiva burocracia na concessão de recursos. Seja por limitações técnicas ou legais, as empresas acabam não inovando ou inovando a partir de outros recursos que não sejam governamentais. Processos mais simples e regras mais claras de concessão, liberação e controle dos recursos poderiam trazer um dinamismo maior às empresas.
Tão importante quanto essas demandas, ou talvez até mais, é a necessidade de se ter uma visão de longo prazo, de se elaborar e implementar um planejamento estratégico para CT&I no país com a participação dos mais variados atores nesse processo. Uma das críticas é que os programas e políticas deveriam ser frutos de uma estratégia previamente discutida com o estabelecimento de objetivos, metas e prazos, avaliação de recursos, elaboração de diagnósticos, construção de cenários, definição de papéis e avaliação de resultados; o que em geral não acontece.
Ao setor empresarial interessa não somente a existência dessa visão de longo prazo, mas, sobretudo, poder participar das discussões em torno de sua elaboração. Nas duas conferências nacionais de CT&I realizadas nessa década pelo MCT, já se percebeu uma evolução quanto à participação do setor empresarial, bem como da academia, organizações não governamentais, poder legislativo e da mídia de uma forma geral. Aos poucos, o setor empresarial, por meio de diferentes associações tem aumentado sua participação nos fóruns de discussão sobre inovação no país.
P: Em geral, essas demandas têm sido contempladas pela política de C,T&I? Por quê?
N:Em geral não e por diferentes motivos. Por um lado há restrições orçamentárias que resultam no contingenciamento de recursos e mudanças na política de incentivos. Para questões abrangentes como a realização de planejamento estratégico que resulte em ações concretas para dinamizar as inovações no país, o governo parece simplesmente não estar interessado em fazer.
Para algumas demandas pontuais deste ou daquele aspecto na legislação o setor privado até consegue exercer alguma influência, mas as críticas do setor empresarial indicam que muitas vezes o governo chama os empresários para o debate, mas em grande parte as demandas não são atendidas. Ou são atendidas apenas parcialmente e após muita insistência.
Por outro lado, deve-se levar em consideração a diversidade da estrutura industrial no Brasil, tendo que se considerar empresas multinacionais, grandes empresas nacionais, micro, pequenas e médias empresas, empresas e setores com graus variados de organização e representação política, estágio tecnológico, inserção externa e nível de competitividade. Daí a dificuldade em se atender a um conjunto variado de necessidades.
P: O Brasil é um país que inova? Por quê?
N: Com exceção de algumas ilhas de excelência como Petrobras e Embraer e outros exemplos mais ou menos conhecidos, pode-se dizer que o país inova pouco. Não há uma causa, mas sim um conjunto de fatores. Para as empresas e para o país, a preocupação com a inovação é relativamente nova. É preciso lembrar que o ambiente empresarial hoje é muito diferente do início dos anos 1990. Naquele período de abertura econômica as empresas estavam preocupadas em apenas sobreviver e começava o movimento pela qualidade total. Foi só aproximadamente em 2001 que o governo brasileiro inseriu o termo “inovação” no binômio C&T.
Ainda falta uma cultura de inovação por parte do setor empresarial e para o governo ainda parece não ser uma questão central, o que explica a relativa baixa quantidade de recursos investidos na área. Diferentemente da Coréia do Sul que elegeu o mercado global para atuar o que implica em níveis competitivos mais elevados, as empresas brasileiras estavam acostumadas com o mercado fechado e baixa necessidade de diferenciar seus produtos e serviços. Não havia tanta pressão para que as empresas inovassem.
A baixa interação entre empresas, governo, universidades e centros de pesquisa também contribui para o baixo nível de inovação das empresas. Aos poucos esse cenário tende a mudar. As empresas e associações empresariais têm insistido na questão da inovação como essencial no aumento de competitividade das empresas. Nos últimos anos, várias iniciativas tanto públicas como privadas sinalizam para o aumento da preocupação e de ações voltadas à inovação, o que tem levado a uma certa expectativa positiva do setor empresarial.
P: Qual o papel das universidades e centros de pesquisa para a inovação no nosso país? Qual a relação destes com as empresas?
N: Eles têm um papel fundamental seja do ponto de vista da formação e capacitação de recursos humanos que atuarão em processos de inovação nas empresas; seja considerando sua capacidade de gerar pesquisas e resultados que são de interesse do mercado. No setor empresarial são recorrentes as discussões sobre o perfil da força de trabalho mais adequado às necessidades das empresas. Muitas arriscam a dizer quais disciplinas ou temas as faculdades deveriam oferecer aos seus alunos. Elas sabem da importância e diferença de se ter uma mão-de-obra qualificada.
Verifica-se que é cada vez maior o número de parcerias exitosas envolvendo universidade e empresa. Todavia, é preciso incrementar ainda mais essa relação. Para muitos, ainda são dois mundos quase incomunicáveis.
A experiência das incubadoras e parques tecnológicos por sua vez, tem crescido e mostrado que é possível e necessário cada vez mais, estreitar os laços entre setor acadêmico e empresas com resultados bastante positivos para ambos. Há uma tendência da universidade buscar as empresas para mostrar suas potencialidades, bem como da empresa reconhecer a importância de parcerias com universidades e centros de pesquisa. A Agência USP de Inovação é um exemplo recente e importante da aproximação desses dois atores no processo de inovação.
P: E qual é o papel dos órgãos de representação empresarial nessa dinâmica de inovação e de demandas empresariais visando à inovação?
N: Eles têm um papel absolutamente relevante nesse processo que inclui ações mais diretamente voltadas aos seus associados e outras relacionadas ao ambiente externo. Internamente pode-se citar um conjunto de ações como: organizar os seus associados, conscientizá-los da importância de se investir em inovação como um diferencial competitivo, divulgar as formas de acesso a recursos públicos, disseminar a experiência de outras empresas e setores e seus resultados com investimentos em inovação e mostrar alternativas de desenvolvimento tecnológico como parcerias com universidades, centros de pesquisa, fornecedores e outras empresas.
Outro papel fundamental é conhecer o perfil dos seus associados e suas principais carências no processo de inovação. Existem algumas críticas no que diz respeito à necessidade de se estruturar melhor determinados setores industriais o que pode ser feito pelos órgãos de representação. Isso implica naquela mesma crítica que é atribuída ao governo no que tange à falta de visão estratégica e planejamento de longo prazo. Ou seja, cabe aos órgãos de representação empresarial propor e realizar estudos prospectivos que definam suas estratégias no curto, médio e longo prazo.
Essa prática pode contribuir para melhorar a comunicação institucional, seja com governos, universidades e centros de pesquisa, com objetivos mais claramente definidos e demandas melhor explicitadas. Este é um dos grandes papéis desses órgãos: estreitar a relação com outros atores no sentido de fortalecer o processo de inovação entre os seus associados, seja por meio de reivindicações junto aos governos, seja por meio de parcerias com outros elos dessa corrente.
:: Marina Mezzacappa ::
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