Archive for Dezembro, 2007
Conheça a Oficina Desafio
Ainda não conhece a Oficina Desafio? Tem curiosidade de saber o que é e como funciona esse projeto do Museu Exploratório de Ciências da Unicamp?
A sugestão é assistir ao vídeo que a assessoria do museu preparou e postou no YouTube. Disponível no link http://www.youtube.com/watch?v=yQ-DNA90Bs0 e também abaixo, o vídeo conta com imagens e depoimentos de quem idealizou ou já participou da experiência.
:: Marina Mezzacappa ::
Add comment 19 Dezembro 2007
Nanotecnologia: das bancadas à boca do povo
O fortalecimento da divulgação e educação científica em nanotecnologia é uma das metas do PAC de Ciência, do Ministério de Ciência e Tecnologia. Ainda pouco conhecida no país pela população em geral, esta tecnologia começa aos poucos a ser divulgada por iniciativas como o “Engajamento Público em Nanotecnologia” e a NanoAventura
Já ouviu falar de nanopartículas ou nanomateriais? Sabe o que a nanociência estuda? Ou quais as suas aplicações tecnológicas disponíveis no mercado? Ainda hoje, pouca gente responderia afirmativamente a essas perguntas. Visando mudar esse cenário e levar o conhecimento sobre essa área científico-tecnológica para além da academia e dos centros de pesquisa, o Ministério de Ciência e Tecnologia coloca como uma de suas ações prioritárias para os próximos três anos o fortalecimento da divulgação e educação científica em nanotecnologia, por meio de atividades em museus de ciência, escolas e centros de treinamento de trabalhadores.
A ação consta do terceiro eixo do Plano de Ação de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Nacional 2007-2010, divulgado no final de novembro. Mais conhecido como PAC da Ciência, o plano define a nanotecnologia não só como uma das áreas estratégicas para o país, mas também como portadora de futuro, juntamente com a biotecnologia. Ou seja, a nanotecnologia tem grandes perspectivas de avanços com alto impacto sobre o desenvolvimento econômico e social, sendo por muitos apontada como a propulsora de uma nova revolução tecnológica.
Devido ao seu grande potencial transformador, a nanotecnologia é tema que concerne a todo cidadão. “A sociedade precisa ser informada sobre este tema para que possa discuti-lo e participar como ator do processo de decisão sobre o desenvolvimento da nanotecnologia no Brasil. Hoje, quem decide é “quem entende” ou seja, a comunidade científica, embora os recursos para a realização de pesquisas no Brasil sejam recursos públicos”, analisa Paulo Roberto Martins, idealizador da Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente (Renanosoma).
Federico Neresini, doutor em Sociologia e Pesquisa Social, professor da Universidade de Padova, Itália, e autor de uma pesquisa que revelou que apenas 28% dos italianos conheciam a palavra nanotecnologia no final de 2005, concorda e avalia que o debate sobre a nanotecnologia ainda não começou de fato, não só na Itália, mas em todo o mundo. Ou seja, o público em geral ainda não está participando ativamente dos processos decisórios a respeito do tema.
Algumas iniciativas, contudo, já estão surgindo no sentido de aproximar a nanotecnologia da população em geral. Criada em 2004, a Renanosoma estuda a nanotecnologia pela perspectiva das ciências humanas e conta hoje com 28 membros. Um de seus projetos, o “Engajamento Público em Nanotecnologia”, tem como principal objetivo informar e discutir nanotecnologia com o público leigo. O trabalho vem sendo realizado desde dezembro de 2006 através de bate-papos pela internet com pesquisadores da área.
“A pessoa entra e, geralmente, retorna. Temos um público cativo”, revela Isabel Veloso Alves Pereira, uma das integrantes do projeto, em apresentação no IX Congresso Brasileiro de Jornalismo Científico, realizado entre os dias 22 e 23 de novembro em São Paulo. Para expandir ainda mais esse público, o próximo passo do projeto será entrar em contato com escolas para que os alunos participem dos debates pela internet na aula de informática.
Também durante o congresso de jornalismo científico, a dose de incerteza sobre o tema e a dificuldade de abordá-lo com linguagem adequada ao público não especializado foram apontados por Maria Fernanda Marques Fernandes, jornalista que pesquisa a divulgação da nanotecnologia pela mídia, como alguns dos entraves para a sua efetiva divulgação. Martins aponta outro: a falta de entendimento, por parte dos cientistas, da necessidade de divulgar suas pesquisas. “A importância da divulgação cientifica ainda é pouco entendida e facilitada. Um indicador disso é que os projetos desenvolvidos por quem está produzindo nanociência e nanotecnologia não prevêem qualquer tipo de recurso para esse tipo de atividade”, lamenta. “Temos encontrado dificuldade para que o debate que propomos fazer seja entendido como de interesse de todos, inclusive dos entrevistados”, completa.
Porém, nem todos os pesquisadores desconhecem a importância da divulgação. Maria Cecília Barbosa da Silveira Salvadori, professora do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, participou de um dos chats realizados pelo Renanosoma e revelou que gostaria de ter outras oportunidades de divulgar o trabalho que realiza na área da nanociência. “Nosso principal meio de divulgação ainda é o nosso site”, afirma.
Já Sérgio Brochsztain, pesquisador do Centro Interdisciplinar de Investigação Bioquímica da Universidade de Mogi das Cruzes, sente dificuldade de inserir as pesquisas realizadas em seu laboratório no noticiário, uma vez que se tratam de pesquisas básicas, com menos apelo. Seus trabalhos acabam sendo divulgados apenas nas revistas especializadas. “Existem muitos pesquisadores trabalhando em nanotecnologia e a imprensa comum normalmente procura os mais famosos”, explica. Ele também enfatiza a dificuldade de transmitir conceitos que estão tão fora do dia-a-dia do leitor. “As vezes, sinto dificuldade de explicar meu trabalho para pessoas que não são da área, inclusive para a minha esposa”, comenta. Para Brochsztain, entretanto, o tema vem sendo bem explorado pela mídia nacional.
Outros meios, novos públicos
A divulgação da nanotecnologia começa, aos poucos, a ganhar terreno. No último dia 30 de novembro, por exemplo, a Renanosoma lançou um documentário em vídeo explicando diversos aspectos deste tipo de tecnologia. Produzido pelo diretor e cinegrafista Alexandre Quaresma e intitulado “Nanotecnologia: O Futuro é Agora!”. O vídeo aborda questões éticas, sociais e ambientais desta nova tecnologia. Quaresma também idealizou um concurso de redação sobre nanotecnologia em parceria com a TV Escola que está em fase de redação de projeto e deve ser executado já em 2008.
Outra iniciativa de divulgação da nanotecnologia vem sendo realizada pelo Museu Exploratório de Ciências da Unicamp. A NanoAventura é uma tenda multimídia que apresenta o tema para crianças e pré-adolescentes através de games e um vídeo 3D. Durante cerca de uma hora, os participantes simulam práticas da indústria e dos laboratórios, como a montagem de nanocircuitos, a limpeza de uma superfície repleta de impurezas nanoscópicas ou o bombardeio de uma célula com remédios de proporções nano.
Na fase de planejamento do projeto, a pesquisadora Sandra Murriello realizou uma avaliação preliminar com 109 crianças e adolescentes de escolas públicas e privadas de Campinas e São Paulo e constatou que apenas 20% delas diziam conhecer os termos nanociência e nanotecnologia, embora tivessem dificuldades em definir tais termos.
Após participarem das atividades interativas propostas na NanoAventura, os participantes já esboçam algumas tentativas de definição. Cíntia, 11 anos, conheceu o projeto no dia 14 de dezembro com outros alunos da Escola Estadual Professor João Fiorello e resume o que aprendeu sobre a nanotecnologia: “É uma ciência com coisas pequenas”. Pode parecer pouco, mas já é um começo.
:: Marina Mezzacappa ::
Add comment 18 Dezembro 2007
Lupa para a nanotecnologia
A Renanosoma, Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente, foi criada em 2004 com o intuito de estudar a nanotecnologia pela perspectiva das ciências humanas.
Um de seus projetos, o “Engajamento Público em Nanotecnologia”, financiado pelo CNPq, tem como principal objetivo informar e discutir nanotecnologia com públicos leigos no assunto. Esse objetivo vem sendo buscado através de bate-papos semanais pela Internet com pesquisadores da área. Neles, o internauta pode participar de forma ativa, questionando o pesquisador e debatendo aplicações tão diversas quanto a medicina ou a eletrônica.
Esta semana, para fechar as atividades do ano de 2007, serão realizados mais dois bate-papos virtuais:
- Quarta-feira, 19 de dezembro, 14 horas:
“Microfluidos e processos químicos preliminares à nanotecnologia”, com o professor Mario Ricardo Gongora Rubio: Engenheiro eletrônico, o convidado é pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) do Estado de São Paulo, da Escola Politécnica da USP e professor da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec), além de ter sido coordenador da Rede IPT de Micro e Nanotecnologia. Publicou em 2005 o artigo “Nanotecnologia: a última fronteira tecnológica”.
- Sexta-feira, 21 de dezembro, 10 horas:“Simulação Computacional de Nanoestruturas”, com o professor Antônio José Roque da Silva. Físico, o convidado é professor livre-docente pelo Instituto de Física da USP, com o tema “Simulações Atomísticas de Materiais”. Trabalha especialmente com simulação computacional e cálculos de estrutura eletrônica e propriedades de transporte eletrônico, com foco em nanoestruturas.
Para participar, basta entrar no site http://meebo.com/room/nanotecnologia/ nos dias e horários marcados e digitar seu nome de usuário. A duração de cada bate-papo é de uma hora.
Desde o dia 30 de novembro, a Renanosoma disponibiliza também em seu site o documentário “Nanotecnologia: O Futuro é Agora!“, produzido pelo diretor e cinegrafista Alexandre Quaresma. O vídeo aborda questões éticas, sociais e ambientais desta nova tecnologia. Vale a pena conferir!
:: Marina Mezzacappa ::
Add comment 18 Dezembro 2007
Militância pela preservação do meio ambiente
Quem se preocupa com o futuro do nosso planeta e quer fazer a sua parte na preservação do meio ambiente (coisa que todos deveríamos fazer, diga-se de passagem), não pode deixar de acessar o blog do meu amigo e colega de turma na faculdade de jornalismo da ECA-USP, Iberê Thenório.
Criado como Trabalho de Conclusão de Curso, o blog Atitude Verde dá dicas de como ser ecologicamente correto no dia-a-dia.
Para Iberê, a preservação do meio ambiente não depende apenas de “líderes, heróis ou governantes, mas principalmente de força de vontade para mudar hábitos do dia-a-dia”. Segundo ele, essas pequenas mudanças podem não só favorecer a natureza, mas também resultar em ecomonia de dinheiro e melhoria na qualidade de vida. Precisa de mais algum motivo para aderir?
Abaixo, um dos textos publicados por Iberê, que tem tudo a ver com essa época de fim de ano.
:: Marina Mezzacappa ::
Luzes de Natal
O natal está chegando e multidões já estão indo à rua 25 de março comprar fardos de luzinhas verdes chinesas para decorar suas casas. A cidade fica mais alegre, as ruas mais claras, e o espírito natalino vai nos avisando que o ano está chegando ao fim.
Do outro lado, o preço do gás natural vai às alturas porque uma parte dele é desviada para as usinas termelétricas, já que as hidrelétricas não vão mais dar conta de gerar energia pra tanto consumo. Pescadores, peixes e comunidades quilombolas são ameaçadas pela construção de mais barragens.
Pelo menos no caso das luzinhas de natal, a tecnologia já deu a solução. Ela se chama led. É uma lâmpada bem pequenininha, mas muito forte, que chega a gastar até dez vezes menos que a comum.
Neste ano, essas luzinhas mágicas já estão sendo vendidas no Brasil no formato de decorações de natal. São um pouco mais caras, é claro, mas apresentam outras vantagens além da economia: duram muito mais, não esquentam e são difíceis de quebrar.
No Submarino, Mercado Livre e Shopping UOL já dá pra encontrar algumas delas. Para se ter uma idéia do baixo consumo de energia, uma mangueira luminosa de 20 metros com 720 leds gasta apenas 48 watts, enquanto a mangueira feita com lâmpadas neon consome cerca de 360 watts.
Em Santa Catarina, há uma fábrica chamada Taschibra que está produzindo não só luzes de natal, mas várias lâmpadas diferentes de LED. Em São Paulo, a tecnologia também já é usada nos semáforos, pois a alta durabilidade faz com que quase nunca se tenha que trocar as lâmpadas.
As velhas lanternas para acampamento também já estão sendo feitas assim. No começo do ano, comprei uma dessas. Tinha 17 leds. Passei o carnaval todo acampando, entrei em cinco cavernas, voltei pra casa e as três pilhas AAA da lanterninha não deram nem sinal de desgaste.
Add comment 17 Dezembro 2007
Exposição propõe novas sensibilidades para desmistificar ciências
Texto de Carolina Raquel Justo, aluno do Labjor, publicado no dia 14 de dezembro de 2007 na Revista Eletrônica ComCiência, sobre exposição de grupo de alunos do Labjor
Intocáveis? Nem a ciência, nem a arte. Este é o recado do grupo de cientistas e jornalistas que se uniu para montar a instalação artística “Bem me quer, mal me quer – ciência e contemporaneidade”, exposta ao público no Museu da Imagem e do Som (MIS) de Campinas e aberta ao público até o final de janeiro. Eles literalmente puseram mãos à obra para colocar o projeto de pé e experimentaram a própria idéia que pretendiam passar: de que tanto arte quanto ciência não se fazem só de mentes brilhantes. E nem estão acima de qualquer suspeita, ou do bem e do mal. Na equipe estão alunos, professores e pesquisadores do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e da Faculdade de Educação da Unicamp. A exposição faz parte do projeto “Biotecnologias de Rua”, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“Bem me quer, mal me quer”: abertura e construção da exposição
Fotos: Carolina Justo e Murilo Alves Pereira
Empunhando serrotes e furadeiras, em meio a pregos, parafusos, latas de tinta. E com muita negociação para chegar às formas finais. Foi assim que a equipe ergueu as cinco peças que compõem a instalação. A novidade é que os visitantes têm a oportunidade de “dar o seu toque” e interagir com as peças e trazer à tona dúvidas, polêmicas e controvérsias
Experimentando sensações
Num passeio pela exposição, o som é inquietante: trilhas de filme de suspense se misturam com choro de criança, gritos de bodes e ovelhas. Conforme se sucedem, as cinco instalações, “Luz na escuridão”, “o grande irmão”, “caixas-pretas”, “auto-retrato” e “ciência ou ficção”, nos levam da angústia ao riso, das trevas aos refletores.

Luz negra
Num túnel escuro. A cada foco de luz que a ciência joga sobre a escuridão do desconhecido, o ser humano que vive a experiência de vida na Terra acredita ter encontrado a luz no fim do túnel para alguma(s) de suas eternas incertezas. A sucessão de focos de luz não é suficiente, entretanto, para clarear o túnel e mostrar a saída para as inquietações do homem. A sensação é a de que a cada novo feixe, a cada novo achado, ele fica mais perdido, de um lado para o outro, sem saber para onde se virar e em quê acreditar, imerso na imensidão do universo, onde as descobertas científicas são como estrelas: fragmentos que piscam ao longe, tão longe que ele não consegue apreender em sua totalidade.
Interação e reflexão
A exposição proporciona aos visitantes possibilidades de reflexão, a partir da interação com as obras. Para Antônio Carlos Amorim é importante destacar o uso da linguagem artística e da subjetividade para a divulgação científica. Amorim é pesquisador da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos coordenadores do projeto “Biotecnologias de rua”. “Pensamos em conceitos para as peças, mas em nenhum momento pensamos em produzir nas pessoas reações fechadas. O nosso objetivo é só fazê-las pensar”, acrescenta Flávia Dourado, jornalista e uma das produtoras da exposição.

O que tem na caixa-preta… depende do ângulo de visão
Um dos objetivos da exposição é desmistificar simultaneamente os estigmas de que em obra de arte não se encosta e de que ciência não se entende. “Diferentemente de outras exposições artísticas, em que a pessoa vem, olha, contempla, inerte, parada, aqui o visitante está o tempo todo interagindo com a peça, experimentando, tendo uma troca com o material exposto e ao mesmo tempo contato com o conteúdo sobre biotecnologias”, explica Luiz Paulo Juttel, também jornalista e membro do grupo.
Na avaliação de Juttel, a primeira reação do público diante das peças é de estranhamento. Mas, “conforme as pessoas entram na brincadeira e vêem como funciona a instalação, vira uma grande festa!”, completa. Romper com o afastamento que as pessoas costumam ter em relação ao mundo da arte e da ciência é uma das iniciativas da exposição. “Pretendemos passar a idéia de que é possível uma aproximação da sociedade com o mundo do laboratório”, afirma Flávia Dourado. A idéia parece que dá certo. Diante do “auto-retrato”, houve quem definisse o cientista como “trabalhador, proletário, alguém como quase todo mundo”.
Caixa-preta da biotecnologia, além da mídia
Apesar de contar com jornalistas em sua composição, o grupo que montou a exposição não poupou críticas à mídia. Ela é considerada uma das grandes responsáveis pela distorção de sentidos atribuídos às ciências. O tema das biotecnologias é um bom exemplo disso. Para a equipe, a ciência não é detentora da verdade ou de um conhecimento hermeticamente fechado. “Quando você começa a ver de perto, percebe que é um processo humano como muitos outros”, observa Juttel. A mídia, porém, há tempos que colabora para consolidar a áurea de incrível e de espetacular da ciência.
Na peça “ciência ou ficção”, o visitante se depara com capas de revista, notícias e manchetes absurdas, alardeando os “milagres” das biotecnologias: tratam de assuntos como clonagem, transgênicos, biocombustíveis. Mas para enxergar direito é preciso ajustar o foco. “O tema biotecnologia é hoje, dentro da mídia, um dos temas de ciência que mais trabalha com as questões que queríamos trazer à tona: a dicotomia de sentidos, a questão de bem ou mal, a controvérsia na ciência”, explica Juttel. Flávia Dourado arremata: “a única crítica direta que a gente faz é essa: preste um pouco mais de atenção no que a mídia está divulgando!”.
Add comment 16 Dezembro 2007
Bali, rodapé da história
Texto publicado pelo jornalista Marcelo Leite no dia 15 de dezembro em seu blog Ciência em dia
A conferência mundial sobre mudança do clima em Bali, Indonésia, fracassou, como era de prever. A única coisa que interessava, fixar a meta de reduzir emissões de gases do efeito estufa entre 25% e 40% até 2020, foi parar numa nota de rodapé. Pelo que reportam os blogs Bali, 40 Graus, As Últimas de Bali e Dot Earth, não há nem um compromisso vago de que os países do mundo – ricos, pobres, ou ricos e pobres juntos – farão um esforço coordenado para atingir a meta de rodapé.
Tenho pena dos jornalistas que foram cobrir Bali. O roteiro se repete desde a Rio-92: A União Européia posa de bacana verde (ou tira bonzinho), os EUA de vilão obstrucionista (tira malvado), e os dois juntos tentam arrancar uma confissão de dívida da chusma de pés-rapados e remediados do G-77.
Os negociadores ficam dias e dias discutindo vocábulos e colchetes, ou vocábulos entre colchetes, sem resolver nada, até chegarem os ministros. Aí todos passam dezenas de horas discutindo vocábulos e colchetes, ou vocábulos entre colchetes, perdem o prazo de sexta-feira, entram pela madrugada ou pospõem a reunião para o sábado, e saem com um “consenso” que não quer dizer nada.
(A exceção, em termos, foi Kyoto, em dezembro de 1997. Uma década atrás, saiu um compromisso com metas – mínimas, na média 5,2% – de cortes nas emissões por países mais desenvolvidos. Os Estados Unidos assinaram, mas nunca ratificaram, nem quando Al “Nobel Inconveniente” Gore era vice.)
Desesperado com notícias que não vêm, os repórteres começam a entrar na onda dos negociadores, medindo com lupa avanços (e recuos) milimétricos: o bode preto foi 3 milímetros para a esquerda; o bode preto ameaçou sentar; o bode preto parece prestes a… Quando o animal adormece no meio do salão, cansado de tanto falatório, todos aplaudem: acordo!
Que acordo? A única coisa em que concordaram é que vão continuar negociando. Fazem reuniões para marcar novas reuniões. O tal “mapa do caminho” não tem norte. Não há vento a favor para quem não sabe aonde quer chegar.
Nunca estivemos tão distantes de qualquer coisa capaz de evitar que a temperatura média da atmosfera ultrapasse 2°C nas próximas décadas. É preciso cortar emissões, e elas continuam subindo. O pior combustível fóssil, carvão mineral, está em pleno revival. Até países mais “limpos”, como o Brasil, estão sujando sua matriz energética, diminuindo a participação relativa de fontes renováveis, como hidrelétricas, e sem dar a mínima para fontes alternativas e eficiência energética.
Os EUA acabarão vencendo por WO. Sem esforço concertado, multilateral, prevalecerá sua doutrina de que cada país deve fazer a sua parte do jeito que bem entender e quando bem entender. É o cenário perfeito para materializar-se o chamado “problema do carona”: fazer corpo mole, beneficiando-se do investimento alheio e sem meter a mão tão fundo no próprio bolso.
Custa caro combater o aquecimento global, mas é um bom investimento (além de uma obrigação para com nossos netos e bisnetos). Os EUA até já admitem que é preciso fazer algo a respeito, coisa que seu governo negava até há pouco, mas não aceitam ceder um milímetro de soberania quanto a decidir o quê, quanto e quando. Usam argumentos liberais esfarrapados, como a suposta eficiência tecnológica e econômica de políticas nacionais voluntárias.
Contudo, também são esfarrapados os argumentos terceiromundistas de Brasil e cia., que tampouco aceitam ceder um milímetro de sua soberania desenvolvimentista. Obtusamente, recusam-se a reciclar o princípio – justo e coprreto – das “responsabilidades comuns porém diferenciadas” consagrado na Convenção da Mudança Climática de 1992. Continuam a pôr ênfase em “diferenciadas”, sem atentar que antes disso vem “comuns”.
Se Bush et caterva não se curvam ao IPCC, eles também não o farão, reconhecendo por exemplo que sem reduções de China, Índia e Brasil, a recomendação do IPCC de cortar 25%-40% é impossível de alcançar. É o outro bode preto na sala, que o G-77 quer fazer passar por branco, ou verde.
Alguém precisa explicar para essa gente, os donos dos dois bodes, qual é o significado da expressão “abraço de afogados”.
1 comment 15 Dezembro 2007
Ciencia para periodistas, periodismo para científicos
Se ha celebrado estos días en Barcelona el European Forum on Science Journalism. Me cuentan que el objetivo es algo así como acercar ciencia y periodismo para mejorar “la difusión del conocimiento sobre ciencia y tecnología a la ciudadanía”. Yo no he ido.
Xavier Pujol Gebellí
Antes no me saltaba ni una. Iba a cuantas reuniones podía sobre ciencia y periodismo. A mesas redondas, a conferencias, a iniciativas de lo más diverso. Incluso he participado en alguna como organizador e, incluso, como ponente. Pero desde la última a la que fui, el 28 de junio de 2006, ya no he ido a ninguna más. Reconozco que el Foro Europeo sobre Periodismo Científico celebrado estos días en Barcelona ha estado a punto de romper con mi absentismo corporativo.
No es que piense que este tipo de eventos, sea cual sea su dimensión, no son importantes. Al contrario. La autoridad intelectual de los que suelen participar está fuera de toda duda, así como también lo está su saber hacer profesional. Fíjense, si no, en el elenco de personalidades que han formado las distintas mesas del foro europeo. Ha habido representantes de la BBC, The Guardian, El País, AlphaGalileo o Nature, entre otros medios de prestigio. También los ha habido de la prestigiosa American Association for the Advancement of the Sciences, con Alan Leshner, editor de Science, a la cabeza; y de instituciones que han destacado en estos últimos tiempos por su aportación en el terreno de los ‘media’ especializados como EMBO, la Universidad de Wisconsin o el Massachusetts Institute of Technology, además de la Universidad Pompeu Fabra a través de su Observatorio de la Comunicación Científica. Negar interés a un encuentro de estas características sería poco menos que analfabetismo profesional.
Pero, como decía, hace tiempo que decidí que este tipo de encuentros no hacían otra cosa que encender mi estado de ánimo. Y uno ya tiene una edad y demasiados factores de riesgo como para exponerse a otros adicionales. Eso sin negar que la pereza también cuenta.
Al último encuentro al cual acudí fue a la presentación en España de la iniciativa Communiqué, liderada por Peter Green. La Fundación Española de Ciencia y Tecnología aspiraba por entonces a ser algo así como un socio estratégico, de modo que la iniciativa, de carácter panaeuropeo, pudiera tener su extensión en el sur de Europa. Communiqué se presentaba como un proveedor de noticias científicas que iba a rellenarse con contribuyentes en forma de gabinetes de comunicación especializados procedentes de centros de investigación, universidades y, quiero pensar, también con aportaciones individuales.
Año y medio después desconozco cómo anda la iniciativa y hasta qué punto ha arraigado en España. Pero si yo, que soy del sector y me considero suficientemente informado no lo sé, tal vez sea porque ha tenido un éxito por lo menos discutible. Tal vez alguien, desde la FECYT, podría orientarme mejor.
En esa ocasión me tocó estar de ponente. Huelga decir que llegué tarde a la mesa redonda (lo atribuí al denso tráfico del día). Huelga decir, también, que la sala donde se celebraba el acto, de dimensiones medias, presentaba poco más que un cuarto de su aforo. Y huelga decir, y no me sabe mal decirlo, que el debate me aburrió soberanamente.
Los argumentos que se presentaron fueron del siguiente calibre: “a los científicos nos cuesta confiar en los periodistas por su escasa formación y su deficiente tratamiento de una información que exige rigor y precisión”; “a los periodistas nos cuesta tratar con los científicos porque se creen el ombligo del mundo y se olvidan de que alguien lee, escucha o ve su trabajo”; “a los científicos nos molesta que se reinterprete nuestro trabajo, se rebaje el nivel, se trivialice el auténtico valor de las cosas”; “a los periodistas nos molesta que el científico no haga un esfuerzo por trasladar su trabajo a algo comprensible”. Y así hasta hora y media después (por fortuna, me salté la primera media hora…) en la que aparecieron demandas corporativas al estilo: qué difícil es divulgar, qué pocas oportunidades tenemos, qué mal está el sistema.
Llegar el último me dio la oportunidad de ser el penúltimo en hablar. Y con el subidón de adrenalina que llevaba por mi retraso (causado en realidad por una confusión al leer el programa) y por lo que acababa de oír, no pude menos que saltar a la yugular de todos los compañeros de mesa. Por aquel entonces superaba yo los veinte años de periodismo científico y, a lo largo de estos dos decenios, “por lo menos en unas veinte veces he escuchado los mismos argumentos”, solté. “Llega un momento”, añadí con cierta vehemencia, “que tanta teoría, tanto lamento y tanta falta de perspectiva me molestan”. Y la puntilla: “Yo no tengo ni idea de lo que se está contando; lo único que sé es que el público demanda y consume informaciones con fundamentos científicos, que hay pocos periodistas especializados y que en España, como ocurre en Europa, aunque menos, hay un grave problema estructural: la ciencia europea pasa por un momento de crisis, tanto en la generación de conocimiento básico como en su transferencia a la sociedad. Sin una política decidida, en la que haya un apoyo real, sólo iniciativas puntuales podrán sobresalir o, peor aún, simplemente subsistir”.
Cuando sueltas algo de este tipo acostumbra a pasar una única cosa: los organizadores de este tipo de reuniones dejan de llamarte. Es lógico. En el fondo es como si les estuvieras diciendo que no tienen ni idea de lo que están hablando. Y no por nada, algo de razón llevan. No tenemos ni idea.
¿Qué tiene todo esto que ver con el Foro Europeo de Periodismo Científico? Les cito algunos de los títulos de las conferencias y mesas redondas que se han celebrado estos días: “Introduciendo la comunicación en el corazón de la ciencia europea”, “Uniendo ciencia y sociedad: Europa necesita un periodismo científico fuerte”, “Periodismo científico en un mundo cambiante”, “Internet y los nuevos medios: ¿amigo o rival del periodista científico?”. Muchas de estas preguntas, muchos de estos conceptos, ya centraban los debates de años atrás. Por lo que parece, todavía no hay respuesta.
Pero si nos atrevemos a escarbar un poco veremos que, tanto mis aseveraciones del principio en relación con la mesa redonda de Communiqué como mi lamento por la poca originalidad de las preguntas del foro europeo, tienen un punto de victimismo que tal vez no cuadre con la realidad. Y esa señora es testaruda y lo muestra con los hechos: a través de internet ha aumentado el consumo de información especializada; en televisión, el documental científico elaborado con medios adecuados (en TV todo cuesta mucho dinero) funciona; y en la prensa diaria, cualquier información científica susceptible de ofrecer un buen titular compite en igualdad de condiciones en la lucha por el espacio disponible.
Si esto es así, ¿dónde está el problema? Yo no lo sé con exactitud pero, simplificando mucho, a veces me da que tenemos una tendencia excesiva a pensar, los que nos dedicamos a la comunicación, que el público es tonto, que no sabe leer y, lo que es peor, que no entiende lo que lee. Por cierto, a los científicos a menudo les pasa lo mismo. Me niego a creerlo. Entre otras cosas porque yo también soy público y me cuesta aceptar mi tontería. ¿Usted aceptaría que le tratasen de tonto?
Texto publicado no Blog Política Científica no dia 13 de dezembro de 2007
Add comment 14 Dezembro 2007
Uma questão de formação
A entrevista abaixo, publicada em setembro de 2002 pela Agência Brasil, mostra o ponto de vista de Manuel Calvo Hernando, um dos mais importantes nomes do jornalismo científico na Ibero-América, acerca do papel da formação do jornalista que trabalha com ciência. Apesar de antiga, a entrevista continua atual e reafirma o papel de cursos como o do Labjor.
Uma visão analítica do jornalismo científico
Divulgar ciência é tarefa que precisa de fortes e seguros alicerces. Que o diga o espanhol Manuel Calvo Hernando, presidente da Associação Espanhola de Jornalismo Científico, que lamenta as dificuldades, ainda hoje persistentes, que enfrentam os jornalistas que querem se especializar na área. Não que os títulos sejam condição “sine qua non” para o bom desempenho profissional, mas ele acredita que a inclusão da temática nos cursos ajudaria o jornalista a se familiarizar com o mundo da ciência, sob uma ótica muito própria.
Ele próprio não se gaba de seus títulos acadêmicos, livros publicados e cargos importantes que ocupou na América do Sul e em seu país natal. Mas ostenta com orgulho o que chama de verdadeiros títulos: seis filhos e 10 netos. “Esses são meus verdadeiros títulos”. Talvez seja essa sensibilidade em valorizar a afetividade o diferencial que aponte para um jornalismo científico bem orientado. No caso de Hernando, sua bússola o orientou para uma carreira laureada de êxito. Há meio século, ele dissemina o que aprendeu com sua especialização em Ciências da Informação e a passagem por vários diários espanhóis e latino-americanos, sempre divulgando a ciência.
Ele também passou pela Associação de Imprensa de Madri e dirigiu por 25 anos o Instituto de Cooperação Iberoamericana. Referência, na Europa, quando o assunto é divulgação científica, Hernando concedeu essa entrevista ao Serviço de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, durante uma curta visita ao Brasil, recentemente.
C&T – Com sua experiência, o que o senhor entende como sendo o ponto nevrálgico da divulgação científica? O que é mais difícil nessa tarefa?
Hernando – O segredo de uma boa divulgação é equilibrar a verdade da ciência com a compreensão do público. Esse é o aspecto mais difícil, fazer com que o público te entenda, sem trair o pensamento científico. E aí está, na minha opinião, o maior problema da divulgação da ciência. Claro, tudo varia segundo as ciências. As ciências humanas, às vezes, são mais fáceis de entender. Ao passo que a matemática e a física são mais difíceis. E todas têm seus aspectos positivos e negativos, mas, na realidade, o grande desafio do divulgador científico ou do jornalista científico é estar em condições de harmonizar a ciência e a compreensão popular.
C&T – O jornalista científico deve ser especializado numa área ou continuar sendo um “generalista” como a maior parte o é hoje?
Hernando – Nos países anglo-saxões começa a haver o jornalismo científico especializado por áreas. Nós não podemos ainda aspirar a essa realidade. Até porque já é uma grande coisa que o jornalista saiba em que direção as coisas caminham. Não se deve exigir que ele conheça todas as ciências, até porque não há ninguém assim no mundo. Basta exigir-lhe uma especialização que permita distinguir quando uma notícia ou informação é realmente jornalística e importante. Tudo isso tem muitos aspectos concretos e muitos problemas. Os problemas do jornalismo científico, pois, podem ser do jornalismo em geral, da ciência ou dos dois aspectos. Em geral, a comunicação, hoje, tem avançado muito, mas sofre de um grave defeito que é confundir o interessante com o importante. E, entre a ciência e o jornalismo, há pontos de contato e pontos de não-contato. Entre os primeiros, estão os que se referem ao conhecimento, quer dizer, o pesquisador tem como obrigação descobrir fatos novos e o jornalista tem como obrigação colocar esses fatos à disposição do público. O que fazer sobre isso? Bom, é preciso resolver problemas de linguagem, de transcodificação. A relação entre pesquisadores e jornalistas tem que melhorar. Outros problemas são também, por parte da ciência, o crescimento acelerado do conhecimento, que hoje não permite que haja uma só pessoa no mundo que saiba de tudo. No Renascimento havia isso. Mas isso acabou. Por outro lado, o jornalista tem que se aproximar o máximo possível do conhecimento com o objetivo de entendê-lo e, assim, poder explicá-lo ao público.
C&T – A relação entre jornalistas e pesquisadores continua ruim?
Hernando – Já foi ruim, mas acredito que está melhorando cada vez mais. E isso por várias razões. Primeiro porque os pesquisadores estão percebendo que há jornalistas que se comportam adequadamente, que não dizem uma coisa no lugar de outra. E também porque o pesquisador precisa da imprensa, dos meios informativos em geral. Ele depende da mídia porque ela é meio para convencer os políticos a destinarem mais recursos para seus experimentos. Há outro elemento, que são os assessores de imprensa, que antes não havia, e hoje em todo lugar há um profissional da área onde se faz ciência. Acredito que tudo isso colabora para que haja uma melhor relação entre jornalistas e pesquisadores. Dito isso, não é que não haja problemas. O conceito de notícia varia muito dependendo do ponto de vista. Jornalistas pensam de uma forma e pesquisadores de outra. Eu, muitas vezes, ao longo da minha carreira, tive a seguinte resposta ao contatar um pesquisador para que me esclarecesse sobre algum assunto: “Ah, sim, com muito prazer, na próxima semana”. Claro, eles (os pesquisadores) não entendem que temos pressa porque trabalham com prazos anuais. Para eles uma semana não é nada e para o jornalista esse prazo não serve. Mas isso também vai se resolvendo à medida que os jornalistas fazem visitas aos laboratórios para entender as dificuldades. Na Inglaterra e na Holanda, por exemplo, há alguns programas para que se faça o inverso, visitas de pesquisadores às redações para que entendam esses problemas que temos com a urgência, com a falta de informação, que são problemas que qualquer jornalista, e o jornalista científico em particular, tem no desempenho do seu ofício.
C&T – O fato de que jornais e canais de televisão são empresas que precisam vender, neste caso seu espaço para anúncio publicitário, compromete a cobertura jornalística?
Hernando – Dependendo da maneira como isso seja usado, claro que compromete. Está claro, se compreende, que a publicidade seja imprescindível para os meios de comunicação, mas o que não é admissível é que uma notícia deixe de ser publicada, ou outra seja propositadamente publicada, segundo os critérios da publicidade. Isso acontece, às vezes, embora acredite que tenha havido menos, porque os anunciantes entendem mais essas questões editoriais e da mesma forma jornalistas e pesquisadores.
C&T – A presença de jornalistas especializados nos canais de divulgação das universidades não ajudaria para acabar com o “analfabetismo científico” da população?
Hernando – Efetivamente. Uma das conclusões da 1ª Conferência Mundial de Jornalistas Científicos, celebrada em Tóquio, em 1992, insistia em que o maior problema do jornalismo científico eram as dificuldades de formação dos especialistas. Essas dificuldades continuam existindo, porque nas escolas e faculdades de jornalismo, em todo o mundo, com exceção da Inglaterra e dos Estados Unidos, geralmente o jornalismo científico é visto como uma vertente de jornalismo especializado. Então, o que acontece é que algumas vezes o oferecem como disciplina e outras não, porque depende de como está estruturado o programa, se há tempo disponível. Em todo caso, não é um problema impossível de se resolver. A Associação Espanhola de Jornalismo Científico, com ajuda do Ministério de Ciência e Tecnologia, neste ano, organizará pela segunda vez cursos de ciências para jornalistas e de jornalismo para pesquisadores. O objetivo é que o jornalista se familiarize com os grandes problemas da ciência e que os pesquisadores se dêem conta dos problemas pelos quais passa o informador na hora de informar. No entanto, volto a afirmar que as dificuldades se concentram principalmente no quesito formação.
Entrevista concedida a Ubirajara Jr e disponível no site da Agência Brasil.
Add comment 14 Dezembro 2007
Divagação científica vs. divulgação científica
Artigo publicado no Observatório da Imprensa por Moisés Viana em 11/12/2007
Li, neste Observatório, o artigo “Imprecisão e licença científica, o retorno“, dos professores e cientistas Rubens Pazza e Karine Frehner Kavalco – um texto interessante, atual e questionador.
Ao participar do I Seminário da Pesquisa em Comunicação da Região Sudoeste (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, em Vitória da Conquista, BA), fiz uma reflexão sobre o discurso científico e a divulgação científica, incluindo o papel do jornalista como inter-mediador de discursos e, por isso mesmo, divulgador científico. Entende-se que os dois discursos estão em esferas diferentes e apresentam caracteres próprios a serem estudados profundamente. Para tanto, segui os passos teórico e prático do filólogo russo Mikhail Bakhtin e da pesquisadora Lilian Zamboni.
O primeiro aponta para necessidade de olharmos o discurso como espaço de interação social que se subdivide em gêneros, tipologias, universos que se inter-relacionam de maneira dinâmica e conflitante (incluindo assunto abordado, sujeito, público, composição léxica do discurso). E Zamboni esclarece, inteligente, sobre os discursos, científico e de divulgação científica.
Vive-se num tempo em que a ciência tem precedência e valor de verdade, um poder quase onipotente. Na atual conjuntura, ela determina ações e hábitos, justificando processo e dinâmicas humanas e os cientistas têm muito a dizer sobre seus estudos. Segundo Lilian Zamboni [Cientistas, Jornalistas e a Divulgação Científica: subjetividade e heterogeneidade no discurso da divulgação científica. Campinas: Fapesp/Editora Autores Associados, 2001], os cientistas constroem e vivem, comunicam-se no exercício de suas atividades sob um gênero de discurso, o científico.
Instrumento eficaz
Essa tipologia discursiva possui características próprias, dinâmicas e termos específicos acessíveis à comunidade científica (discurso do biólogo, discurso do físico, discurso do sociólogo, por exemplo). Eles se comunicam num processo discursivo sisudo, por jargões elaborados segundo regras rígidas e após exaustivos testes, exames, observações e práticas laboratoriais constantes. Ao se comunicarem fora do cotidiano para seus pares, eles, em geral, constroem um discurso bem calçado, com conceitos previamente discutidos e em consenso. Tudo para assim serem aceitos ou rejeitados, de acordo com a tendência ideológica da comunidade em que estão inseridos. Criam-se novos conceitos, rejeitam-se outros, reelaborando-se constantemente no interior desse gênero discursivo.
O discurso científico pertence à comunidade científica e para adentrá-la é preciso as provas de título, envolver-se e entrelaçar-se em suas dinâmica, em outras palavras, tornar-se cientista. Como salienta o filósofo Michel Foucault [FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: edições Loyola, 2003.], eles compõem um grupo privilegiado, instituído de qualificação para tal procedimento: criar um enunciado verbal e competente no assunto.
A fala científica se restringe nessa área e só entra quem for qualificado. Entretanto, eles não compõem um gênero de discurso fechado incomunicável, mas dialogam com outros discursos que se interconectam com os cientistas. Daí, a necessidade de haver uma divulgação científica, o instrumento eficaz dos cientistas para serem ouvidos fora de seus laboratórios, havendo assim progresso da ciência, subsídios financeiros e justificação ideológica das práticas de pesquisa.
Entre o céu e o inferno
Diferente desse gênero discursivo científico, o discurso de divulgação científica em seus diversos níveis (desde cientistas falando a outros cientistas em áreas distintas, cientistas falando para leigos, e leigos falando de ciência para outros leigos) assume-se num universo distinto; nele não se apresentam as falhas, as práticas cotidianas, mas apenas os resultados das pesquisas. Ele é uma nova reestruturação sofisticada para o público heterogêneo da sociedade, onde se diluem jargões, desaparecem conceitos, resumem-se resultados. Tal gênero apresenta e transforma o discurso científico em conteúdo divulgador, isto é, clareia as hipóteses e teorias da pesquisa científica para o público, aproximando-se lexicamente e simplificando, visando ao entendimento da população.
A descoberta de um novo medicamento, os avanços da genética, as novas aplicações do eletromagnetismo tornam-se parte do discurso social através da divulgação científica. Falar sobre ciência é, antes de tudo, colocá-la a serviço da sociedade, juntamente com sua aplicação prática, abrangendo temas que alcançam o cotidiano.
O discurso de divulgação é um discurso midiático, torna-se mediação entre os enunciados científicos e o público, mantendo um caráter universal e seus enunciados acessíveis a uma miríade de sujeitos discursivos. Ideologicamente, atua sobre a sociedade, a mente e os hábitos e cultura, escolhas econômicas e opções políticas.
Em resumo, a divulgação científica possui uma função legitimadora e explicadora do discurso científico, reformulando a ciência divulgada. Para tanto, o desafio é grande para o inter-mediador, que fica entre o céu e o inferno, ou seja, na terra, tramitando entre a divulgação e a divagação científica.
Add comment 12 Dezembro 2007