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O medo da metástase

Em seu artigo Why We’re Losing The War On Cancer [And How To Win It] publicado na revista Fortune de 22 de março de 2004, Clifton Leaf relata sua experiência pessoal convivendo com a Doença de Hodgkin, desde 1978 quando, aos 15 anos, tomou conhecimento de seu diagnóstico deste tipo de câncer.

Além do enfoque pessoal, difícil de se eximir em situações como esta, Clifton aborda um aspecto epidemiológico do câncer. Apesar dos inúmeros esforços para se encontrar um tratamento para este conjunto de doenças, ainda estamos muito longe de alcançar uma solução realmente eficaz.

É notório como o medo desta doença cria um ambiente que favorece o crescimento de uma verdadeira cultura do câncer, incluindo neste sentido o aspecto mercadológico da doença. São bilhões de dólares investidos em pesquisas para a compreensão da sua fisiologia, para o desenvolvimento de novos medicamentos, novas terapias e novos diagnósticos. Quando comparamos os dados epidemiológicos do câncer com o das demais doenças, como as circulatórias, constatamos que, enquanto nas últimas décadas ocorreu uma redução significante na incidência destas, os casos de câncer continuam a não apresentar redução aparente. Em realidade, todo o investimento no combate ao câncer resultou no aumento da sobrevida dos pacientes, mas não interferindo em sua incidência na população.

Dois outros aspectos interessantes são abordados por Clifton. O primeiro consiste na necessidade de se investir maciçamente em campanhas de prevenção ao câncer, esta sim uma política que resulta na redução da incidência de casos na população em geral. O segundo aspecto é a questão da ocorrência da metástase. Na realidade, o tumor primário é responsável por apenas 10% dos óbitos causados por câncer. Os outros 90% são derivados de ocorrência de metástase.

Algumas células tumorais podem se desprender de um tumor primário e formar uma nova colônia tumoral, em outro local do corpo. Esta transferência de local é denominada metástase (do grego metástatis = transferência de lugar).

Metástase compreende o selo definitivo da malignidade, um sinal de mau prognóstico. Quando surgem metástases, quase sempre o câncer é incurável. O caso de Clifton é uma rara excessão. Geralmente, a primeira manifestação clínica do câncer está relacionada com suas metástases.

Embora descrito desde Hipocrates, a relação entre câncer e metástase foi caracterizada por Rudolf Ludwig Carl Virchow (1821–1902), o “pai da patologia celular”. Segundo este médico prussiano, as células novas se formavam através da divisão das células velhas: omnis cellula e cellula. Desse conceito emergiu a patologia moderna, assim como a classificação dos tumores.
Para Virchow, distúrbios no metabolismo de uma célula qualquer poderiam transformá-la em uma célula neoplásica ou cancerosa, caracterizada por uma proliferação sem controle.

Para exemplificar o processo de neoplasia, este médico e revolucionário sugeriu que as doenças seguiam a evolução de um levante popular, iniciando-se com a revolta de uma célula, à semelhança de um indivíduo, e proliferando entre os indivíduos à sua volta, acarretando, então, alteração da ordem de um órgão, como de um estado, até derrubar o governo central.

Mesmo com o diagnóstico precoce, o paciente ainda corre o risco, uma vez extirpado o tumor, de que, durante este processo de remoção, algumas células cancerígenas venham a se espalhar e originar metástase.

É assim, com medo de tocar um tumor e ele despertar, espalhar-se e acabar tomando o controle do corpo originalmente sadio, que Robert N. Proctor aborda o delicado tema central de seu artigo Why did the Nazis have the world’s most aggressive anti-cancer campaign?, publicado na revista Endeavour Vol. 23(2) 1999.

Embora a Alemanha tenha desencadeado a mais agressiva campanha anti-câncer, e também a mais bem sucedida, este fato não se torna público nos dias de hoje.

Durante as décadas de 1930 e 1940, estudos de pesquisadores alemães já apontavam o tabagismo como a principal causa de câncer de pulmão. Esta relação tabaco-câncer foi considerada uma ligação não consistente nos Estados Unidos e Inglaterra até os finais da década de 1950.

Esta política anti-tabagismo não é recente na Alemanha. Desde o Século XVII, quando o tabaco foi introduzido nos territórios de língua alemã por soldados holandeses e ingleses, durante a Guerra dos 30 Anos, as penalidades contra quem fosse apanhado fumando incluíam até a morte.

Não só o tabaco, mas também o asbesto, outros compostos cancerígenos e abuso de álcool foram abolidos da vida da população alemã. Uma campanha de alimentação saudável e atividades físicas também foi iniciada.

Robert N. Proctor se pergunta o porquê desta política anti-câncer não ser utilizada como exemplo hoje em dia. Creio que a resposta o próprio autor conhece, pois passa boa parte do artigo justificando que ele não está fazendo “em hipótese alguma” uma apologia às outras práticas nazistas (realmente conhecidas).

Certamente é o medo da metástase!

:: Hércules Menezes ::

2 comments 11 Novembro 2007


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O blog Paralelas é um espaço de reflexão e de debate acerca de temas relacionados à comunicação, à ciência e à cultura, criado e alimentado pelos alunos do curso de especialização em jornalismo científico do Labjor/Unicamp

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