O averso do avesso
2 Novembro 2007
“Por vezes, à noite, há um rosto que nos olha do
fundo de um espelho. A arte deve ser como esse
espelho, que nos mostra o nosso próprio rosto”.
Jorge Luís Borges
Quando dispomos dois espelhos, um frente ao outro, e passamos a analisar as imagens formadas em ambos, percebemos que elas se refletem infinitas vezes em ambos os espelhos. Esta é uma forma didática, que a Ótica nos possibilita, de vislumbrar o infinito.
Ainda me lembro daquela primeira sensação de “se lançar no infinito”. Aquela sala do Palácio Imperial de Petrópolis, com suas paredes revestidas por espelhos, tornou-se a arena perfeita para que eu e meus irmãos, ao entrarmos subitamente na sala, víssemos nossas imagens projetadas, uma dentro da outra, em sentido ao infinito.
Bem mais tarde, quando os dias já não tinham mais o ar de inocência, quando nos olhamos no espelho e ficamos na dúvida de “será que neste corpo que vejo estou eu?”, quando percebemos que além do corpo refletido no espelho, somos também uma alma, que Descartes deslocou, que Espinosa agregou, que Chauí contemporizou como fronteiras móveis, é que percebemos que, além do infinito do corpo refletido, existe também uma alma infinita.
Este é o nosso olhar o espelho.
Até meados do século XX, admitíamos que o olhar e se reconhecer no espelho eram atributos exclusivamente humanos. Esta visão e percepção do próprio eu era o que nos distinguia dos outros animais. Entretanto, esta exclusividade já não nos pertence mais.
Esta capacidade de auto-reconhecimento compartilhamos também com os Grandes Símios (chimpanzés, bonobos, orangotangos e gorilas) e também com alguns cetáceos (golfinhos e baleias). Diversos trabalhos recentes vêm apontando também a possibilidade de outros mamíferos, bem como não mamíferos, apresentarem esta percepção frente a um espelho. Geralmente outros animais, quando vislumbram suas imagens no espelho, atribuem a esta imagem a presença de outro animal, não a ele próprio.
Outra característica, que também era atribuída exclusivamente aos humanos, era a capacidade de se distinguir atos intencionais de atos não-intencionais (acidentais).
Em um recente trabalho publicado na Science , 317, 1402 (2007), pelo grupo de pesquisas do Laboratório de Evolução Cognitiva de Harvad, liderado pelo psicólogo Marc Hauser (http://www.wjh.harvard.edu/~mnkylab/Home.html), foi constatado, através de um estudo comparado entre três primatas (sagüis, macacos rhesus e chimpanzés), que a aptidão para discernir atos intencionais de atos acidentais é comum a todos os primatas e que deva ter emergido há pelo menos 40 mil anos.
Certamente esta constatação não é uma novidade aos pesquisadores de Evolução do Comportamento Social, embora, não tenhamos dúvida, passa agora a ser uma confirmação de difícil refutação, tanto pela acuidade e precisão do trabalho, como frente ao respaldo moral do grupo junto à comunidade científica.
A distinção entre intencionalidade e não intencionalidade de atos é uma condição extremamente importante para a sobrevivência de um organismo e, principalmente, para a coexistência social. É a partir deste discernimento que um organismo consegue antever e avaliar a reação de outro. É através deste discernimento que as matilhas e outros grupos de animais conseguem desenhar estratégias de caça, de fuga, de proteção, de coleta, enfim, conseguem harmonizar e otimizar a unidade do grupo.
Esta constatação, de que nossas diferenças com os demais animais são (quando existem) apenas quantitativas e que, na realidade, estamos mais perto dos animais que dos deuses, ao contrário do que pregava Aristóteles, vêm se reforçando nos últimos 40 anos.
Refletirmo-nos em outros animais apenas espelha nossa condição animal. Afinal, somos geneticamente 98% semelhantes aos chimpanzés ou são eles 98% semelhantes a nós? Ou é a pergunta que está mal formulada? Na realidade não existe uma pergunta, mas sim uma afirmação: Nós compartilhamos uma semelhança genética de 98%!
Pessoalmente, complementando Borges: “a arte e a ciência devem ser como este espelho, que nos mostram nosso próprio rosto”.
:: Hércules Menezes ::
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1. Edmilson | 12 Setembro 2008 at 5:34 pm
Além da religião.