Archive for Novembro 2nd, 2007

Uma nova visão para as afasias

Dificuldade de entendimento e de expressão oral, pronúncia de sons sem significado, substituição de uma palavra por outra, invenção de palavras ou uso de uma única expressão em toda tentativa de comunicação. Esses são algumas das conseqüências da “afasia”, um distúrbio da linguagem causado por uma lesão cerebral que é desconhecida pela maioria das pessoas, mas que há cerca de 20 anos é estudada e tratada no Centro de Convivência de Afásicos (CCA) da Unicamp.

O CCA é um dos centros pioneiros do país ao tratar as afasias com uma nova visão, diferente da tradicional. “Por experiência, percebi que o sujeito afásico fica de fora da clínica tradicional”, diz Maria Irma Hadler Coudry, professora livre-docente do departamento de Neurolinguística da Unicamp, e uma das fundadoras do CCA.

A maioria dos tratamentos tradicionais age como um “treinamento” para que o paciente “reaprenda” a usar a linguagem, através de repetições automáticas e exercícios mecânicos como repetição de palavras, soletração, completar frases, descrição de figuras e leituras em voz alta. Esses exercícios não trabalham a habilidade comunicativa do sujeito afásico, mas o relegam a um papel de “papagaio”. Coudry ilustra com um caso emblemático do método tradicional: uma das pacientes que atendeu havia passado por um tratamento que se baseava na linguagem escrita exclusivamente, e ela possuía um caderno no qual deveria escrever a frase “eu consigo” várias vezes como parte da terapia. Quando chegou ao CCA, a paciente não falava nada, e foi preciso um duro trabalho para que conseguisse voltar a se comunicar. “É preciso prestar atenção no sujeito, ouvir o que ele tem a dizer e incentivá-lo a dizer”, afirma a professora.

Estudar a linguagem do sujeito afásico faz conhecer, como explica Coudry, “o que a afasia apaga e o que o sujeito sublinha”. Portanto, o trabalho no CCA propõe uma visão diferente sobre as afasias, em uma abordagem chamada neurolinguística. Essa nova proposta avalia o sujeito dentro da linguagem, ligada diretamente ao seu uso efetivo, procurando reconhecer os recursos que os sujeitos afásicos utilizam para organizar e trabalhar com a linguagem – mesmo com os déficits ocasionados pela afasia, e, os mecanismos que criam para suprir as estruturas que estão desarranjadas. Não há priorização da doença e, sim, do sujeito, que se recupera e reestrutura o uso de sua linguagem através da linguagem. Por isso o trabalho do centro é realizado em grupo através de atividades que envolvem agenda de tarefas, jornal, fotos de família, música, teatro, passeios, seção de cinema e até culinária – “São práticas que tem sentido na nossa vida”, explica a professora. Fora das sessões, ainda há acompanhamento fonoaudiológico e atividades físicas.

Não existe cura para a afasia, no sentido clássico de erradicação da enfermidade, “mas sempre se pode melhorar a fala e a qualidade de vida do sujeito”, afirma Coudry. E é esse o propósito do centro, “o que caracteriza o CCA é uma abordagem mais humana: não interessa para nós a doença, interessa para nós o sujeito que está apresentando alguma dificuldade”, conclui.

O CCA
O CCA foi fundado em 1987 pelo neurologista Benito Damasceno, pela fonoaudióloga Edwiges Morato e por Coudry. Interessados numa abordagem diferente para o tratamento dos problemas da linguagem, os três começaram a trabalhar juntos no Laboratório de Neurolingüística do Hospital das Clínicas da Unicamp. Com um convênio feito entre o departamento de Neurolingüística e o departamento de Neurologia da universidade, o centro passou a ser sediado no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), onde funciona desde 1989. O CCA reúne profissionais de diferentes áreas, como Letras, Linguística, Fonoaudiologia e até Artes. Hoje o centro atende três grupos de adultos afásicos, e mais um grupo especial de crianças que apresentam algum tipo de dificuldade de leitura e escrita.

:: Chris Bueno ::

1 comment 2 Novembro 2007

O averso do avesso

“Por vezes, à noite, há um rosto que nos olha do
fundo de um espelho. A arte deve ser como esse
espelho, que nos mostra o nosso próprio rosto”.
Jorge Luís Borges

Quando dispomos dois espelhos, um frente ao outro, e passamos a analisar as imagens formadas em ambos, percebemos que elas se refletem infinitas vezes em ambos os espelhos. Esta é uma forma didática, que a Ótica nos possibilita, de vislumbrar o infinito.

Ainda me lembro daquela primeira sensação de “se lançar no infinito”. Aquela sala do Palácio Imperial de Petrópolis, com suas paredes revestidas por espelhos, tornou-se a arena perfeita para que eu e meus irmãos, ao entrarmos subitamente na sala, víssemos nossas imagens projetadas, uma dentro da outra, em sentido ao infinito.

Bem mais tarde, quando os dias já não tinham mais o ar de inocência, quando nos olhamos no espelho e ficamos na dúvida de “será que neste corpo que vejo estou eu?”, quando percebemos que além do corpo refletido no espelho, somos também uma alma, que Descartes deslocou, que Espinosa agregou, que Chauí contemporizou como fronteiras móveis, é que percebemos que, além do infinito do corpo refletido, existe também uma alma infinita.

Este é o nosso olhar o espelho.

Até meados do século XX, admitíamos que o olhar e se reconhecer no espelho eram atributos exclusivamente humanos. Esta visão e percepção do próprio eu era o que nos distinguia dos outros animais. Entretanto, esta exclusividade já não nos pertence mais.

Esta capacidade de auto-reconhecimento compartilhamos também com os Grandes Símios (chimpanzés, bonobos, orangotangos e gorilas) e também com alguns cetáceos (golfinhos e baleias). Diversos trabalhos recentes vêm apontando também a possibilidade de outros mamíferos, bem como não mamíferos, apresentarem esta percepção frente a um espelho. Geralmente outros animais, quando vislumbram suas imagens no espelho, atribuem a esta imagem a presença de outro animal, não a ele próprio.

Outra característica, que também era atribuída exclusivamente aos humanos, era a capacidade de se distinguir atos intencionais de atos não-intencionais (acidentais).

Em um recente trabalho publicado na Science , 317, 1402 (2007), pelo grupo de pesquisas do Laboratório de Evolução Cognitiva de Harvad, liderado pelo psicólogo Marc Hauser (http://www.wjh.harvard.edu/~mnkylab/Home.html), foi constatado, através de um estudo comparado entre três primatas (sagüis, macacos rhesus e chimpanzés), que a aptidão para discernir atos intencionais de atos acidentais é comum a todos os primatas e que deva ter emergido há pelo menos 40 mil anos.

Certamente esta constatação não é uma novidade aos pesquisadores de Evolução do Comportamento Social, embora, não tenhamos dúvida, passa agora a ser uma confirmação de difícil refutação, tanto pela acuidade e precisão do trabalho, como frente ao respaldo moral do grupo junto à comunidade científica.

A distinção entre intencionalidade e não intencionalidade de atos é uma condição extremamente importante para a sobrevivência de um organismo e, principalmente, para a coexistência social. É a partir deste discernimento que um organismo consegue antever e avaliar a reação de outro. É através deste discernimento que as matilhas e outros grupos de animais conseguem desenhar estratégias de caça, de fuga, de proteção, de coleta, enfim, conseguem harmonizar e otimizar a unidade do grupo.

Esta constatação, de que nossas diferenças com os demais animais são (quando existem) apenas quantitativas e que, na realidade, estamos mais perto dos animais que dos deuses, ao contrário do que pregava Aristóteles, vêm se reforçando nos últimos 40 anos.

Refletirmo-nos em outros animais apenas espelha nossa condição animal. Afinal, somos geneticamente 98% semelhantes aos chimpanzés ou são eles 98% semelhantes a nós? Ou é a pergunta que está mal formulada? Na realidade não existe uma pergunta, mas sim uma afirmação: Nós compartilhamos uma semelhança genética de 98%!

Pessoalmente, complementando Borges: “a arte e a ciência devem ser como este espelho, que nos mostram nosso próprio rosto”.

:: Hércules Menezes ::

1 comment 2 Novembro 2007


Paralelas

O blog Paralelas é um espaço de reflexão e de debate acerca de temas relacionados à comunicação, à ciência e à cultura, criado e alimentado pelos alunos do curso de especialização em jornalismo científico do Labjor/Unicamp

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