Archive for Novembro, 2007
O medo da metástase
Em seu artigo Why We’re Losing The War On Cancer [And How To Win It] publicado na revista Fortune de 22 de março de 2004, Clifton Leaf relata sua experiência pessoal convivendo com a Doença de Hodgkin, desde 1978 quando, aos 15 anos, tomou conhecimento de seu diagnóstico deste tipo de câncer.
Além do enfoque pessoal, difícil de se eximir em situações como esta, Clifton aborda um aspecto epidemiológico do câncer. Apesar dos inúmeros esforços para se encontrar um tratamento para este conjunto de doenças, ainda estamos muito longe de alcançar uma solução realmente eficaz.
É notório como o medo desta doença cria um ambiente que favorece o crescimento de uma verdadeira cultura do câncer, incluindo neste sentido o aspecto mercadológico da doença. São bilhões de dólares investidos em pesquisas para a compreensão da sua fisiologia, para o desenvolvimento de novos medicamentos, novas terapias e novos diagnósticos. Quando comparamos os dados epidemiológicos do câncer com o das demais doenças, como as circulatórias, constatamos que, enquanto nas últimas décadas ocorreu uma redução significante na incidência destas, os casos de câncer continuam a não apresentar redução aparente. Em realidade, todo o investimento no combate ao câncer resultou no aumento da sobrevida dos pacientes, mas não interferindo em sua incidência na população.
Dois outros aspectos interessantes são abordados por Clifton. O primeiro consiste na necessidade de se investir maciçamente em campanhas de prevenção ao câncer, esta sim uma política que resulta na redução da incidência de casos na população em geral. O segundo aspecto é a questão da ocorrência da metástase. Na realidade, o tumor primário é responsável por apenas 10% dos óbitos causados por câncer. Os outros 90% são derivados de ocorrência de metástase.
Algumas células tumorais podem se desprender de um tumor primário e formar uma nova colônia tumoral, em outro local do corpo. Esta transferência de local é denominada metástase (do grego metástatis = transferência de lugar).
Metástase compreende o selo definitivo da malignidade, um sinal de mau prognóstico. Quando surgem metástases, quase sempre o câncer é incurável. O caso de Clifton é uma rara excessão. Geralmente, a primeira manifestação clínica do câncer está relacionada com suas metástases.
Embora descrito desde Hipocrates, a relação entre câncer e metástase foi caracterizada por Rudolf Ludwig Carl Virchow (1821–1902), o “pai da patologia celular”. Segundo este médico prussiano, as células novas se formavam através da divisão das células velhas: omnis cellula e cellula. Desse conceito emergiu a patologia moderna, assim como a classificação dos tumores.
Para Virchow, distúrbios no metabolismo de uma célula qualquer poderiam transformá-la em uma célula neoplásica ou cancerosa, caracterizada por uma proliferação sem controle.
Para exemplificar o processo de neoplasia, este médico e revolucionário sugeriu que as doenças seguiam a evolução de um levante popular, iniciando-se com a revolta de uma célula, à semelhança de um indivíduo, e proliferando entre os indivíduos à sua volta, acarretando, então, alteração da ordem de um órgão, como de um estado, até derrubar o governo central.
Mesmo com o diagnóstico precoce, o paciente ainda corre o risco, uma vez extirpado o tumor, de que, durante este processo de remoção, algumas células cancerígenas venham a se espalhar e originar metástase.
É assim, com medo de tocar um tumor e ele despertar, espalhar-se e acabar tomando o controle do corpo originalmente sadio, que Robert N. Proctor aborda o delicado tema central de seu artigo Why did the Nazis have the world’s most aggressive anti-cancer campaign?, publicado na revista Endeavour Vol. 23(2) 1999.
Embora a Alemanha tenha desencadeado a mais agressiva campanha anti-câncer, e também a mais bem sucedida, este fato não se torna público nos dias de hoje.
Durante as décadas de 1930 e 1940, estudos de pesquisadores alemães já apontavam o tabagismo como a principal causa de câncer de pulmão. Esta relação tabaco-câncer foi considerada uma ligação não consistente nos Estados Unidos e Inglaterra até os finais da década de 1950.
Esta política anti-tabagismo não é recente na Alemanha. Desde o Século XVII, quando o tabaco foi introduzido nos territórios de língua alemã por soldados holandeses e ingleses, durante a Guerra dos 30 Anos, as penalidades contra quem fosse apanhado fumando incluíam até a morte.
Não só o tabaco, mas também o asbesto, outros compostos cancerígenos e abuso de álcool foram abolidos da vida da população alemã. Uma campanha de alimentação saudável e atividades físicas também foi iniciada.
Robert N. Proctor se pergunta o porquê desta política anti-câncer não ser utilizada como exemplo hoje em dia. Creio que a resposta o próprio autor conhece, pois passa boa parte do artigo justificando que ele não está fazendo “em hipótese alguma” uma apologia às outras práticas nazistas (realmente conhecidas).
Certamente é o medo da metástase!
:: Hércules Menezes ::
2 comments 11 Novembro 2007
Brasil, um belo lugar para pesquisas acadêmicas?
Além de ser interessante para investimentos de capital financeiro, o país desponta também como um bom local para investigação científica
Não é difícil encontrar pelos corredores de qualquer instituição acadêmica professores reclamando de baixos salários e dificuldades em se obter financiamentos para pesquisas. Tampouco não é inusitado ouvir reclamações sobre as condições instrumentais de trabalho e a precariedade das políticas públicas para Ciência e Tecnologia. O inusitado é encontrar na The Scientist deste mês o Brasil em 11º lugar no ranking dos 15 melhores países para se fazer pesquisa acadêmica, na frente de outros como a Alemanha (ver quadro-fonte The Scientist).
O ranking dos melhores países integra um levantamento feito pela revista científica junto aos leitores de suas versões impressa e digital. A apuração aponta também as melhores instituições para se fazer pesquisa. Este ano a liderança nos Estados Unidos (EUA) ficou com o Massachusetts General Hospital, que no ano anterior não havia nem aparecido na lista. Já no restante do mundo, a canadense Dalhousie University foi a top. Nessa categoria, não consta nenhuma instituição brasileira.
Os resultados foram colhidos via o retorno de mais de dois mil questionários preenchidos, nos quais os leitores atribuiram notas de um a cinco a 39 pontos apresentados em oito diferentes áreas: satisfação no emprego; parceiros; infraestrutura e ambiente; recursos para pesquisas; pagamento; administração e atitudes; ensinamento e orientação e mandato.
Nem todos os questionários respondidos foram utilizados na pesquisa, aqueles que apresentavam problemas na identificação, tanto do leitor quanto da instituição em que ele trabalha foram descartados. Assim como não foram consideradas as respostas de instituições estadunidenses, das quais menos de cinco questionários foram recebidos. No caso de instituições fora dos EUA, esse número era de quatro questionários. O desenvolvimento e análise da pesquisa ficaram por conta da AMG Science Publishing, empresa que presta consultoria na área científica.
Novos caminhos
Se o resultado positivo demostrado no ranking da The Scientist deste ano se mantiver nos próximos anos, como reflexo de uma maior atenção das instituições brasileiras à Ciência e à Tecnologia, varias áreas correlatas também seguirão pelo mesmo caminho. Uma delas, a do jornalismo científico.
Neste sentido, intituições públicas paulista já vêm há algum tempo investindo em qualificação profissional nessa área. O Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp, há dez anos promove uma especialização na área e, neste ano, teve o seu curso de pós-graduação stricto sensu (mestrado) reconhecido pela Capes.
Não só esta área de jornalimo tende a crescer, como a divulgação científica de forma geral. Pesquisas recentes de percepção percepção pública da Ciência e da Tecnologia dão a sustentação a investimentos tanto das iniciativas federal, estaduais, municipais, quanto das privadas. Um exemplo dessas iniciativas é a implantação do Plano de Ação da Ciência e da Tecnologia, mais conhecido como PAC da Ciência, a ser lançado ainda neste mês pelo governo Federal.
.:Adriana Lima e Hércules Menezes:.
Add comment 5 Novembro 2007
Uma nova visão para as afasias
Dificuldade de entendimento e de expressão oral, pronúncia de sons sem significado, substituição de uma palavra por outra, invenção de palavras ou uso de uma única expressão em toda tentativa de comunicação. Esses são algumas das conseqüências da “afasia”, um distúrbio da linguagem causado por uma lesão cerebral que é desconhecida pela maioria das pessoas, mas que há cerca de 20 anos é estudada e tratada no Centro de Convivência de Afásicos (CCA) da Unicamp.
O CCA é um dos centros pioneiros do país ao tratar as afasias com uma nova visão, diferente da tradicional. “Por experiência, percebi que o sujeito afásico fica de fora da clínica tradicional”, diz Maria Irma Hadler Coudry, professora livre-docente do departamento de Neurolinguística da Unicamp, e uma das fundadoras do CCA.
A maioria dos tratamentos tradicionais age como um “treinamento” para que o paciente “reaprenda” a usar a linguagem, através de repetições automáticas e exercícios mecânicos como repetição de palavras, soletração, completar frases, descrição de figuras e leituras em voz alta. Esses exercícios não trabalham a habilidade comunicativa do sujeito afásico, mas o relegam a um papel de “papagaio”. Coudry ilustra com um caso emblemático do método tradicional: uma das pacientes que atendeu havia passado por um tratamento que se baseava na linguagem escrita exclusivamente, e ela possuía um caderno no qual deveria escrever a frase “eu consigo” várias vezes como parte da terapia. Quando chegou ao CCA, a paciente não falava nada, e foi preciso um duro trabalho para que conseguisse voltar a se comunicar. “É preciso prestar atenção no sujeito, ouvir o que ele tem a dizer e incentivá-lo a dizer”, afirma a professora.
Estudar a linguagem do sujeito afásico faz conhecer, como explica Coudry, “o que a afasia apaga e o que o sujeito sublinha”. Portanto, o trabalho no CCA propõe uma visão diferente sobre as afasias, em uma abordagem chamada neurolinguística. Essa nova proposta avalia o sujeito dentro da linguagem, ligada diretamente ao seu uso efetivo, procurando reconhecer os recursos que os sujeitos afásicos utilizam para organizar e trabalhar com a linguagem – mesmo com os déficits ocasionados pela afasia, e, os mecanismos que criam para suprir as estruturas que estão desarranjadas. Não há priorização da doença e, sim, do sujeito, que se recupera e reestrutura o uso de sua linguagem através da linguagem. Por isso o trabalho do centro é realizado em grupo através de atividades que envolvem agenda de tarefas, jornal, fotos de família, música, teatro, passeios, seção de cinema e até culinária – “São práticas que tem sentido na nossa vida”, explica a professora. Fora das sessões, ainda há acompanhamento fonoaudiológico e atividades físicas.
Não existe cura para a afasia, no sentido clássico de erradicação da enfermidade, “mas sempre se pode melhorar a fala e a qualidade de vida do sujeito”, afirma Coudry. E é esse o propósito do centro, “o que caracteriza o CCA é uma abordagem mais humana: não interessa para nós a doença, interessa para nós o sujeito que está apresentando alguma dificuldade”, conclui.
O CCA
O CCA foi fundado em 1987 pelo neurologista Benito Damasceno, pela fonoaudióloga Edwiges Morato e por Coudry. Interessados numa abordagem diferente para o tratamento dos problemas da linguagem, os três começaram a trabalhar juntos no Laboratório de Neurolingüística do Hospital das Clínicas da Unicamp. Com um convênio feito entre o departamento de Neurolingüística e o departamento de Neurologia da universidade, o centro passou a ser sediado no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), onde funciona desde 1989. O CCA reúne profissionais de diferentes áreas, como Letras, Linguística, Fonoaudiologia e até Artes. Hoje o centro atende três grupos de adultos afásicos, e mais um grupo especial de crianças que apresentam algum tipo de dificuldade de leitura e escrita.
:: Chris Bueno ::
1 comment 2 Novembro 2007
O averso do avesso
“Por vezes, à noite, há um rosto que nos olha do
fundo de um espelho. A arte deve ser como esse
espelho, que nos mostra o nosso próprio rosto”.
Jorge Luís Borges
Quando dispomos dois espelhos, um frente ao outro, e passamos a analisar as imagens formadas em ambos, percebemos que elas se refletem infinitas vezes em ambos os espelhos. Esta é uma forma didática, que a Ótica nos possibilita, de vislumbrar o infinito.
Ainda me lembro daquela primeira sensação de “se lançar no infinito”. Aquela sala do Palácio Imperial de Petrópolis, com suas paredes revestidas por espelhos, tornou-se a arena perfeita para que eu e meus irmãos, ao entrarmos subitamente na sala, víssemos nossas imagens projetadas, uma dentro da outra, em sentido ao infinito.
Bem mais tarde, quando os dias já não tinham mais o ar de inocência, quando nos olhamos no espelho e ficamos na dúvida de “será que neste corpo que vejo estou eu?”, quando percebemos que além do corpo refletido no espelho, somos também uma alma, que Descartes deslocou, que Espinosa agregou, que Chauí contemporizou como fronteiras móveis, é que percebemos que, além do infinito do corpo refletido, existe também uma alma infinita.
Este é o nosso olhar o espelho.
Até meados do século XX, admitíamos que o olhar e se reconhecer no espelho eram atributos exclusivamente humanos. Esta visão e percepção do próprio eu era o que nos distinguia dos outros animais. Entretanto, esta exclusividade já não nos pertence mais.
Esta capacidade de auto-reconhecimento compartilhamos também com os Grandes Símios (chimpanzés, bonobos, orangotangos e gorilas) e também com alguns cetáceos (golfinhos e baleias). Diversos trabalhos recentes vêm apontando também a possibilidade de outros mamíferos, bem como não mamíferos, apresentarem esta percepção frente a um espelho. Geralmente outros animais, quando vislumbram suas imagens no espelho, atribuem a esta imagem a presença de outro animal, não a ele próprio.
Outra característica, que também era atribuída exclusivamente aos humanos, era a capacidade de se distinguir atos intencionais de atos não-intencionais (acidentais).
Em um recente trabalho publicado na Science , 317, 1402 (2007), pelo grupo de pesquisas do Laboratório de Evolução Cognitiva de Harvad, liderado pelo psicólogo Marc Hauser (http://www.wjh.harvard.edu/~mnkylab/Home.html), foi constatado, através de um estudo comparado entre três primatas (sagüis, macacos rhesus e chimpanzés), que a aptidão para discernir atos intencionais de atos acidentais é comum a todos os primatas e que deva ter emergido há pelo menos 40 mil anos.
Certamente esta constatação não é uma novidade aos pesquisadores de Evolução do Comportamento Social, embora, não tenhamos dúvida, passa agora a ser uma confirmação de difícil refutação, tanto pela acuidade e precisão do trabalho, como frente ao respaldo moral do grupo junto à comunidade científica.
A distinção entre intencionalidade e não intencionalidade de atos é uma condição extremamente importante para a sobrevivência de um organismo e, principalmente, para a coexistência social. É a partir deste discernimento que um organismo consegue antever e avaliar a reação de outro. É através deste discernimento que as matilhas e outros grupos de animais conseguem desenhar estratégias de caça, de fuga, de proteção, de coleta, enfim, conseguem harmonizar e otimizar a unidade do grupo.
Esta constatação, de que nossas diferenças com os demais animais são (quando existem) apenas quantitativas e que, na realidade, estamos mais perto dos animais que dos deuses, ao contrário do que pregava Aristóteles, vêm se reforçando nos últimos 40 anos.
Refletirmo-nos em outros animais apenas espelha nossa condição animal. Afinal, somos geneticamente 98% semelhantes aos chimpanzés ou são eles 98% semelhantes a nós? Ou é a pergunta que está mal formulada? Na realidade não existe uma pergunta, mas sim uma afirmação: Nós compartilhamos uma semelhança genética de 98%!
Pessoalmente, complementando Borges: “a arte e a ciência devem ser como este espelho, que nos mostram nosso próprio rosto”.
:: Hércules Menezes ::
1 comment 2 Novembro 2007