Archive for Setembro, 2007
Pra quem gosta dos bonobos
A fotógrafa Jill Greenberg, conhecida por retratar celebridades, publicou há exatamente um ano o livro Monkey Portraits. Notícia velha? Sim. O que não diminui o fascínio que o livro deve exercer sobre os adoradores desses nossos parentes distantes. O livro de Jill reúne 76 fotografias, feitas em estúdio, de macacos e chimpanzés, muitos dos quais participantes de filmes e programas de TV. O trabalho da fotógrafa captura, nos primatas, expressões que evocam emoções humanas. Confira um slideshow com algumas de suas fotografias.
Em tempo: o livro estará disponível em versão de capa mole a partir do dia 12 de outubro, nos Estados Unidos.
Para conhecer um pouco mais do trabalho de Jill acesse o site do estúdio da fotógrafa. Leia também a matéria publicada na revista The Scientist sobre o livro e o post do jornalista Marcelo Leite, onde tomei conhecimento sobre o livro.
:: Marina Mezzacappa ::
1 comment 25 Setembro 2007
Nanotecnologia em destaque
A edição de setembro da revista Galileu traz uma matéria interessante sobre nanotecnologia. Assinada por Salvador Nogueira, ela revela algumas aplicações atuais da nanotecnologia, como nos circuitos de dispositivos como o iPod, e faz algumas previsões sobre possíveis aplicações, como no tratamento de doenças como o câncer.
Para ler a matéria completa, clique aqui.
Abaixo, veja o esquema que a Galileu preparou para explicar o que é a nanotecnologia e como ela pode ser aplicada.
O QUE É
Construção por átomos define a produção nano
1.Origem: os estudos tiveram início em meados do século passado, quando o Nobel de física Richard Feynman (1918-1988) propôs em discurso a manufatura de elementos átomo por átomo. E a nanotecnologia é a ciência da criação de máquinas que manipulam um átomo por vez
2.Nanorrobôs: são os “trabalhadores” em tamanho molecular no mundo da “nanofatura”. Máquinas que têm um controle, molécula a molécula, do processo de construção, eles assumem duas formas básicas: montadores gerais e auto-reprodutores
3.Auto-reprodutores: para construir algo útil, são necessários muitos montadores. Assim, a sua primeira tarefa é produzir cópias de si próprios. Para erguer um arranha-céu, por exemplo, é preciso liberar toda uma série de montadores, formada por bilhões e bilhões de microscópicos robôs
4.Montadores gerais: esses robôs do tamanho de células são equipados com “dedos” para manipular moléculas, sondas para distinguir um átomo do outro e programas para dizer a eles o que fazer e como
5.Os dois lados da manufatura: o primeiro é a abordagem convencional, que começa com um grande pedaço de matéria, que será modificada até atingir a forma desejada. A outra maneira é amontoar os átomos na forma pretendida. E isso é possível. Basta pegar o exemplo das células, que juntam proteínas de átomos e moléculas individuais, transformando-as em coisas maiores, que vão desde o esperma até as árvores
APLICAÇÕES
No futuro, a nanotecnologia vai ocupar papel fundamental na construção de objetos
1.Diversidade: Não há limite para imaginar o que será possível fazer com os nanorrobôs. Uma das mudanças a que vamos assistir num futuro próximo é a proliferação do processo de “nanofatura” de nanotubos. Desse avanço, podem decorrer inúmeros outros, principalmente no campo da tecnologia e na área médica
2.Nanotubos: são minúsculas estruturas feitas de carbono/grafite. Eles são muito fortes, pequenos e bons condutores de eletricidade. Podem formar o bloco central de estruturas e dos computadores do futuro
3.Avanços high tech: o primeiro é a miniaturização dos computadores. A IBM fez experiências com chips que poderiam abrigar o conteúdo de mais de mil CDs convencionais. Tudo num apetrecho do tamanho de um relógio de pulso. Por enquanto, esses aparelhos ainda não transpuseram a linha que separa os laboratórios das prateleiras
4.Avanços médicos: os nanorrobôs podem ser inseridos no interior do nosso corpo para investigar moléculas e fazer os reparos necessários
5.Avanços comerciais: os nanorrobôs podem rearranjar moléculas para criar substâncias mais eficientes. Diamantes podem ser criados e manipulados, dando origem a um material dez vezes mais resistente que o alumínio. Prédios, carros e aeronaves do futuro podem ser construídos assim
6.Avanços ambientais: objetos nano podem ser espalhados em locais com lixo tóxico para identificar moléculas perigosas e rearranjálas, para que passem a ser benéficas
7.Pesadelo: o que aconteceria se os nanorrobôs começassem a se reproduzir descontroladamente e não mais parassem? Catástrofe na certa, mas os cientistas afirmam que eles seriam programados para se reproduzir até determinado limite. Mas e se o programa der pau? Um pesadelo, sem dúvida
Para quem quer ganhar mais familiaridade com o tema da nanotecnologia e da nanociência, uma dica é agendar uma visita à NanoAventura. A NanoAventura é um dos projetos do Museu Exploratório de Ciências da Unicamp, em Campinas. Ele consiste em uma exposição interativa que explica conceitos desse mundo muito pequeno através de vídeos e jogos eletrônicos.
:: Marina Mezzacappa ::
* leia também:
Ciência de ponta e sem mitos
Lançado em 2008 na França e publicado no Brasil por ocasião do Ano da França no Brasil, o livro Nanociências: A revolução do invisível trata com esmero um tema sensível. Demonstrando real preocupação com a ideia que o público leigo tem de como a ciência evolui (e com os resultados a que essa percepção leva), o engenheiro e físico Christian Joachim (especialista na área) e o jornalista científico Laurence Plévert discursam com bastante intimidade sobre os diferentes conceitos de nanociências existentes. É uma obra que discute temática atual, que ainda terá profundo impacto em nossa maneira de viver. (continua)
* leia mais em Blog Amálgama
1 comment 20 Setembro 2007
Uma outra comunicação é possível?
Textinho que escrevi em 2004, quando cursava jornalismo. Como graduandos costumam ser mais “românticos”, o texto soa idealista.
Escrevi sobre os cursos de jornalismo, especificamente sobre minha experiência como estudante da UFV. Mas na pós-graduação parece não ser diferente. Por isso achei o texto atual.
“Quão romântica pode ser uma turma de calouros de jornalismo versando sobre os motivos que os levaram a optar pelo curso. Meio desprevenidos, meio iludidos, eles ingressam na universidade com o intuito de tornarem-se aptos para exercer uma atividade idônea. Qual não é a surpresa quando se dão conta de que a profissão escolhida está em crise, desacreditada pelo corporativismo das empresas jornalísticas e emaranhada numa profusão de críticas que partem dos mais diversos campos do conhecimento.
Mas o choque de realidade é logo suavizado, e o romantismo pode refugiar-se na esperança da transformação. Aos estudantes é dada a missão de mudar o modelo de jornalismo vigente. Vislumbrados por essa possibilidade, põem-se a pensar uma outra comunicação, mais qualificada, democrática, justa e independente. Envolvidos por debates sobre ética, compromisso com a verdade, interesse público, entre outros assuntos, eles são estimulados a mergulhar em leituras teóricas que problematizam a comunicação e propõem alternativas afinadas com os ideais de um jornalismo que cumpre sua missão.
Por três ou quatro períodos a principal ocupação dos estudantes é teorizar. Nesse momento, lhes é cobrado uma postura crítica sobre a atividade jornalística, construída por meio de discussões, embates de visões de mundos, confronto de autores e abstrações. As reflexões se lhes apresentam como uma forma saudável de reciclar conhecimentos e de elaborar estratégias para mudar. A certa altura, animados pela sensação do saber, os estudantes sentem-se preparados para produzir. Como em uma seqüência lógica – estudar, aprender, praticar – eles esperam o momento de agir. E o momento chega.
Nova queda de expectativa arrefece os futuros jornalistas. A prática não é tida como uma continuação dos estudos teóricos, mas como uma etapa à parte do curso de comunicação social. Os estudantes são convidados a rechaçar as reflexões que fizeram outrora e a reproduzir um modelo que foram incentivados a questionar por ser ineficiente e antidemocrático. Vêem-se, assim, reféns de uma estrutura universitária que não dá espaço para o novo, em nome da preparação de profissionais aptos para o mercado de trabalho.
O curso de jornalismo da Universidade Federal de Viçosa exemplifica bem a descontinuidade do ensino. É visível o descompasso entre a primeira metade do curso – dedicada quase exclusivamente ao debate de idéias – e a segunda – quando conteúdos teóricos são ministrados apenas para embasar a prática de técnicas padrões. Do primeiro ao quarto período, o currículo prevê 22 disciplinas obrigatórias. Delas, 17 são exclusivamente teóricas e têm como objetivo principal aguçar o espírito crítico dos estudantes ou simplesmente acrescentar-lhes conhecimentos de uma cultura geral. Do quinto período até o final, a situação é invertida. De um total de 14 disciplinas, apenas 4 são dedicadas a conteúdos teóricos.
O problema que se coloca não é a contemplação dispensável do treinamento técnico nos currículos, tampouco a priorização da prática em detrimento da reflexão, mas a discrepância entre os dois momentos do curso. O pensar e o agir são universos contraditórios, enquanto deveriam andar juntos, de maneira que a postura reflexiva abrisse caminho para novas práticas em comunicação. Da mesma forma, a tentativa de aplicar um modelo alternativo de jornalismo poderia mostrar aos futuros profissionais os limites e obstáculos impostos pela profissão, muitos intransponíveis.
Os cursos de comunicação são, portanto, paradoxais. Se por um lado estimulam os estudantes a conjeturar formas mais “saudáveis” de comunicar, por outro lhes convidam todo momento a praticar um jornalismo enrijecido pelos vícios e normas de mercado. Os subsídios para traçar novas rotas para a profissão ficam restritos a debates e leituras meditativa.
A partir daí o espaço para discussões tende a declinar. Apartados dos conteúdos reflexivos das ciências humanas e sociais, futuros jornalistas são treinados para (re)produzir. Técnica passa a ser a palavra de ordem e o curso, como se dividido em duas fases independentes, concentra-se agora na capacitação profissional. A execução de idéias e de projetos originais torna-se parte um horizonte inatingível, cada vez mais distante na medida em que o hábito do pensamento crítico é abandonado.
Os cursos de jornalismo acabam por formar um profissional incompleto e frustrado. Incompleto porque se os estudos teóricos não têm aplicação prática, tornam-se inúteis e passam a compor uma cultura geral sem potencial de aproveitamento específico no exercício da profissão. Outrossim, se os conteúdos técnicos não são precedidos de um arcabouço teórico, não têm outra utilidade senão preencher requisitos curriculares. Frustrado porque é estimulado a formar juízo crítico de um modelo que mais tarde vê-se obrigado a engolir. Ao estudante é apresentada a contradição entre o como deveria ser e o como é. Por não ter a oportunidade de experimentar novos caminhos para o jornalismo durante o período universitário, ele não saberá ousar durante a vida profissional. E assim, o ciclo de reprodução do modelo falho de comunicação permanece. Aos estudantes, resta a sensação de derrota e a dúvida: uma outra comunicação é possível?”
:: Flávia Dourado Maia ::
3 comments 13 Setembro 2007
Como não casar com parentes
A biologia pode fornecer bases para a hipótese psicanalítica sobre o incesto
Em sua clássica obra ”Totem e Tabu” (1913), Sigmund Freud assinala certas particularidades do chamado sistema totêmico, constatado em diversas tribos primitivas da Austrália e outras regiões do planeta. ”Em quase todos os lugares onde o totem está em vigor existe a lei segundo a qual os membros do mesmo totem não devem ter relações sexuais e, portanto, não devem casar entre si. Esta é a lei inseparável do totem, chamada exogamia”, escreve Freud.
Antes da adoção dos nomes familiares, o homem utilizou outras estratégias para distinguir parentes próximos daqueles mais afastados, ou, melhor dizendo, distinguir com quem poderia deixar descendentes. Numa dessas estratégias, um pequeno agrupamento familiar denominado clã elegia um animal como totem. Este “pai ancestral” do clã, por assim dizer, era transmitido de geração a geração, formando dessa forma grupos familiares diferenciados entre si por meio da adoção de um totem.
Numa linguagem mais biológica, estes clãs poderiam ser descritos como populações humanas apresentando alto grau de similaridade gênica, no qual a endogamia _quer dizer, o cruzamento entre esses parentes_ poderia levar à emergência de uma série de anomalias genéticas e à consequente degeneração dos clãs. O estabelecimento de uma norma cultural, na qual os indivíduos de um clã só pudessem casar-se com indivíduos de outro clã (exogamia), foi um fator crucial para que estas populações primitivas não se extinguissem pela endogamia.
Para Freud, a ocorrência de uma proibição do incesto, ou tabu do incesto, em populações primitivas já era um fato marcante e sustentável para o desenvolvimento de sua teoria psicanalítica. Devemos salientar ainda que as informações acerca da evolução do homem eram então insignificantes quando comparadas com as que dispomos hoje em dia.
Mas, para a biologia, a questão decorrente é: como os homens evitavam a endogamia antes do advento do totem?
Primeiramente, antes de procurarmos tal resposta, devemos nos lembrar de que, ao mesmo tempo em que somos membros da espécie humana, nós fazemos parte da natureza. Mesmo nossas atitudes particulares, que muitas vezes acreditamos serem excepcionais, não diferem, no plano quantitativo, daquelas de nossos parentes não humanos mais próximos.
Neste século, é inquestionável a tendência de procurarmos respostas à nossa existência através de uma interiorização, seja pela psicanálise, seja pelo reducionismo na biologia molecular. A ferramenta mais adequada para esta última área de conhecimento tem sido a engenharia genética. Muitas vezes, através destas técnicas, é possível traçarmos paralelos entre comportamentos culturais e patrimônio genético.
Genes e parceiros
Uma das regiões do genoma dos vertebrados que mais tem recebido atenção é o CPH (Complexo Principal de Histocompatibilidade, ou MHC, em inglês). No homem, ele compreende uma região contendo mais de 100 genes, localizada no braço curto do cromossomo seis. Nesse campo, a maior parcela dos estudos foi focalizada no papel preponderante que os produtos destes genes desempenham nas reações de rejeição a enxertos.
Apesar da importância dessas pesquisas, os imunobiologistas têm outra perspectiva de trabalho. Enxertos não ocorrem na natureza e, portanto, esses genes deveriam desempenhar alguma outra função. Além de seu papel no reconhecimento de materiais estranhos ao organismo, já há cerca de duas décadas vêm sendo acumulados indícios de que, pelo menos em camundongos, a escolha do parceiro sexual estava influenciada por este complexo gênico.
Alguns genes do CPH são conhecidos por apresentarem um alto grau de polimorfismo _isto é, formas alternativas (alelos). Como são genes responsáveis pela resistência imunológica, ocorre que, em uma dada população, os indivíduos sejam diferentes, pelo menos quanto a estes genes (exceção dos gêmeos idênticos) e, consequentemente, consigam apresentar graus diferentes de resistência imunológica a uma dada infecção microbiana.
Pesquisa
Num artigo publicado no renomado boletim científico ”Proceedings of the Royal Society of London”, Claus Wedekind e sua equipe, formada por pesquisadores do Instituto de Imunologia e Alergia, e da Universidade de Berna, na Suíça, apresentaram uma pesquisa na qual se mostrou que a escolha do parceiro sexual na espécie humana ocorre com interferência do odor e que o CPH está envolvido na produção deste odor.
Estudantes de ambos os sexos, que não se conheciam, tiveram alguns de seus genes do CPH analisados por engenharia genética e classificados quanto ao grau de parentesco entre eles. Os alunos vestiram uma camiseta por duas noites consecutivas e, no dia seguinte, cada aluna cheirava seis camisetas e atribuía-lhes notas (de 0 a 10), quanto à sensação de prazer que o odor lhes causava. A análise dos resultados mostrou que as notas correspondentes às maiores sensações de prazer eram dadas aos odores dos alunos cujo CPH eram mais diferentes dos seus, ou melhor, dos alunos com grau de parentesco mais distante. Havia um ”tabu genético” tendendo a evitar um cruzamento entre parentes mais próximos.
Evidentemente, a reprodução sexual acarreta substancial benefício aos organismos que a utilizam e, portanto, devem existir mecanismos que facilitem a ocorrência de cruzamentos interessantes para os membros de uma população.
É claro que não existe um determinismo genético tão rígido para a escolha de nossos parceiros sexuais. Um comportamento como esse está sujeito a diversos outros fatores que não só o odor. Ainda mais se levarmos em conta que, durante o processo de humanização, nossa percepção olfativa não acompanhou a visual e auditiva.
Entretanto, além de sua repercussão no âmbito biológico, este artigo vem reforçar a idéia de Freud de que o tabu do incesto foi preservado durante o processo de humanização, e mantido em nosso comportamento cotidiano. Em outras palavras, que a hipótese psicanalítica do tabu do incesto pode ser corroborada pela biologia.
:: Hércules Menezes :: é professor de imunobiologia do curso de pós-graduação do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista
Fonte: Caderno Mais!, Folha de S. Paulo, 28 de abril de 1996
Add comment 13 Setembro 2007
Google: aliado, vilão ou coluna do meio?
Quem nunca utilizou o buscador Google que atire a primeira pedra
Se você, assim como eu, é viciado no Google, veja o que Roberto Hirata Júnior, professor de Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME/USP), tem a dizer sobre a ferramenta:
“Antes de pensar numa solução própria para um problema, a pessoa pode acostumar-se facilmente a buscar a solução no Google. Para um adulto bem formado, talvez isso acarrete apenas uma perda de tempo. Para uma criança em formação, talvez as conseqüências sejam piores, como a perda de agilidade intelectual, má formação do senso crítico etc”.
Em matéria publicada na AUN, o professor fez essas e outras ressalvas em relação à ferramenta. Para ler a matéria completa, clique aqui.
Curiosidade 1
Você sabe de onde surgiu o nome Google?
Segundo a própria empresa, o nome é um trocadilho com a palavra ‘googol‘, inventada por Milton Sirotta, sobrinho do matemático americano Edward Kasner. ‘Googol’ designaria o número representado por 1 seguido de 100 zeros, o que, para o Google, tem tudo a ver com sua missão de organizar o enorme montante de informações disponíveis na web e no mundo.
Curiosidade 2
Se você colocar a palavra Paralelas no Google hoje, encontrará 4.650.000 resultados. Este Blog aparece como a vigésima oitava referência. Contudo, se você procurar por Blog Paralelas, nossa colocação é bem melhor: aparecemos como a quinta ocorrência.
:: Marina Mezzacappa ::
Add comment 12 Setembro 2007
Uma história sobre fontes científicas
Na aula do Marcelo Leite desta segunda (dia 10), o professor comentou sobre o ‘duelo’ entre jornalistas e cientistas. Com o arcabouço teórico dos textos do Cássio Leite e da Cláudia Dreifus – um voltado aos cientistas e o outro aos jornalistas – foram apresentadas na aula uma série de dicas para o bom convívio entre as duas partes. O professor disse se identificar com as dicas de Dreifus sobre como o jornalista de ciência deve se portar diante da fonte. Concordo com alguns pontos, outros nem tanto.
Nos poucos anos que tenho como jornalista científico já tive o prazer de encarar fontes de variados gênios. Para comentar algumas das dicas da aula, gostaria de usar como exemplo a última matéria que escrevi para a ComCiência.
Bem, a matéria faz parte do dossiê sobre perfumes e fala da memória olfativa das pessoas. Como percebemos e armazenamos o cheiro? Por que nos lembramos de alguns perfumes e de outros não?, resumiu minha pauta. Achei interessante abordar a matéria sob três aspectos: uma fonte científica que explicasse como ocorre a percepção do olfato, um especialista de vinhos que contasse sua experiência em identificação das castas de uva e uma pessoa que não possui o sentido de olfato e descrevesse como é a sua vida (sem percepção e tampouco memória olfativa).
Por fim, uma quarta fonte comentava em um Box sobre os feromônios. Em última análise, eles podem ser comparados à atração de um perfume (em última última análise mesmo, em uma metáfora bem forçada, ok?).
Tinha então quatro fontes completamente diferentes. Um médico neurologista, um sommelier e enólogo, uma pessoa comum e um biólogo com doutorado em feromônios de insetos. Ainda que cada fonte tenha sua particularidade, tive a mesma atitude com cada uma delas.
Falei inicialmente com o professor Damasceno, do Departamento de Neurociências, das FCM da Unicamp. Damasceno é uma pessoa simples: vestia seu jaleco de médico e estava sentado em uma cadeira no corredor com os braços cruzados, quando cheguei. Enquanto conversávamos, ele atendia seus alunos, de modo que a entrevista fora várias vezes interrompida. O engraçado é que, quando voltava, ele continuava falando da parte em que parara, sem que eu precisasse reintroduzir o assunto.
Em certos momentos, o professor falou de forma geral, como se nervos olfatórios ou lobo frontal fossem obviedades. Mas, por conta de minha insistência, explicou cada um dos conceitos mais complicado e foi atencioso ao responder dúvidas por e-mail e telefone.A relação que senti com a primeira fonte foi a sua falta de tempo. Embora tivéssemos marcado um horário, ele encaixou outra atividade durante a entrevista.
Outra observação interessante é o distanciamento inicial da fonte científica. Ao longo da entrevista, um bom papo acaba aquecendo a conversa e torna a fonte mais confiável em relação ao nosso trabalho.
***
Foi por telefone que conversei com a segunda fonte. Embora não seja a maneira mais recomendada (lembram-se da aula?), a distância de São Carlos me forçou a isso. O especialista em vinhos, Sérgio Inglez, também foi bastante cordial em me atender e explicar dados interessantes sobre os vinhos (pena que muita coisa fica de fora da matéria, mas naquela mesma noite comprei uma garrafa de Malbec para apreciar).
Por telefone, alguns nomes estrangeiros tiveram que ser soletrados, mas a entrevista em geral correu bem. A fonte foi amigável logo no início e bastou mostrar interesse pelo assunto sobre o qual ele entende (de fato gosto muito de vinhos) para ele contar histórias e fornecer mais detalhes de sua área. Não achei que o telefone tenha sido um grande problema, embora reconheça que a conversa pessoalmente seria mais frutífera.
***
Para o Box dos feromônios, conversei com o biólogo Alberto Arab, que me recebeu em casa, a noite, e também foi muito gentil. Arab é venezuelano e faz pos-doc na Unicamp. Conversamos sobre a situação na Venezuela, os desmandos de Chavez e a impossibilidade de fazer ciência por lá. Além disso, falamos do objeto de estudo dele de uma forma geral. Ele passou curiosidades sobre, por exemplo, uma espécie de vespa terrível que usa os feromônios para se comunicar e devastar uma colméia de abelhas (também ficou fora da matéria).
Com Arab, a relação jornalista / cientista pôde ser treinada da mesma forma. Ficamos à vontade na mesa da sala de sua casa e, ao invés de uma entrevista, tivemos uma conversa. Assim como Damasceno, Arab foi específico em alguns pontos afirmando que “não se pode dizer tal coisa” ou que “a ciência ainda não tem certeza sobre isso”. Frustrante para um jornalista não ter dados palpáveis ou generalizações em mãos. Mas sejamos corretos e respeitemos as informações da fonte.
Um outro detalhe foi, ao fim da entrevista, o biólogo pedir o texto antes de ser publicado. Nunca fui contra isso, acho razoável que a fonte confira algumas informações técnicas no texto, desde que esteja claro, como o Marcelo disse na aula, que as eventuais correções sejam de ordem técnica e que a última palavra seja do jornalista. No final acabei sem tempo para enviar-lhe a matéria. Mas quando foi publicada, a recomendei para a apreciação de Arab.
***
Minha última entrevistada foi uma amiga que não possui o sentido do olfato. Assim como o especialista em vinhos, ela deu o tempero a uma matéria que poderia ter ficado muito técnica. Mariana Zazur, uma estudante de estatística da Unicamp, contou suas experiências e pude trabalhar suas histórias com as informações científicas das outras fontes. Um médico pode dizer qual é o caminho do cheiro e apontar quais as possíveis causas para que o olfato seja impedido. Mas foi a Mari quem contou suas histórias e disse na prática quais as particularidades de não poder cheirar.
Sentei no sofá do apartamento da Mari com o bloquinho na mão. Ela ficou num banco e me contou uma série de histórias, como se tivéssemos conversando normalmente sobre um assunto qualquer. No final da entrevista ela disse: “Puxa Murilo, nem pareceu uma entrevista, foi mais uma conversa”.
Acredito que isso não se deve apenas ao fato de a Mari ser minha amiga. Prefiro, sempre que possível, transformar uma entrevista em uma conversa – assim como sugeriu Dreifus em seu texto. Essa prática retira algumas barreiras da entrevista e deixa o entrevistado muito mais à vontade. Que tal, por exemplo, perguntar a um médico neurologista quais as suas preferências de perfume? Ou se ele tem experiências pessoais para exemplificar a memória olfativa (todo mundo tem)?
Como o professor disse na aula, a relação entre jornalista e cientista deve ser de cordialidade. Ninguém está fazendo favor nenhum para o outro, mas cada um faz seu trabalho. Essa relação de respeito, pelo trabalho e pelas necessidades do outro, garantem que a matéria científica seja feita com qualidade. Com a dinâmica jornalística e com o rigor científico.
Ah, quem quiser conferir a matéria, acesse o link.
:: Murilo Alves Pereira ::
4 comments 11 Setembro 2007
Financiamento para publicações
Você tem ou deseja criar uma publicação (eletrônica ou que tenha versão) para divulgar ciência?
Caso sua resposta seja afirmativa, preste atenção neste edital: http://www.cnpq.br/editais/ct/2007/docs/Edital%20MC1.pdf
1 comment 6 Setembro 2007
“Levando um lero” com o jequitibá
A expressão “vegetar” sempre esteve associada a um estado de passividade frente à vida. Quem já não se referiu a um amigo que anda meio despercebido, voltado a seus problemas existenciais ou de dia-a-dia, que quando perguntamos: você tem visto Fulano?
Geralmente temos como resposta: Fulano? Anda fechado em sua casa, vegetando.
Plantas são organismos sésseis, ou melhor, dizendo, fixados ao local de vida. Tal condição faz com que necessitem obter o complexo espectro de nutrientes diretamente deste local. Suas folhas e raízes, extensivas fronteiras aéreas e subterrâneas com o meio ambiente, por um lado facilitam a absorção de nutrientes, mas também as tornam vulneráveis a diversos organismos espoliadores e outras condições adversas ao seu desenvolvimento.
A condição de organismo séssil, impossibilitado de fuga frente a uma agressão ou mesmo de locomoção na procura de água ou nutrientes, resultou na denominação de vegetais às plantas.
Esta visão originou-se na Grécia, há cerca de 2.370 anos, e foi formulada por Aristóteles, na primeira obra conhecida sobre Ciências Naturais, a clássica “Dos Animais”.
Aristóteles fez uma distinção entre a matéria inerte (inorgânica) e a matéria viva (orgânica) atribuindo às formas vivas duas essências (almas) distintas:
a) Vida (alma) vegetativa. Nessa classe inferior de vida, que é a puramente vegetativa, Aristóteles inclui três funções que são a nutrição, o crescimento e a geração. As duas primeiras tendem à conservação do indivíduo e a terceira à conservação da espécie.
b) Vida (alma) sensitiva. Para Aristóteles, a sensibilidade caracterizava o mais alto grau de hierarquia dos seres vivos. Os animais, ao contrário das plantas, estariam acrescidos da faculdade de conhecer outros seres distintos deles mesmos. A esse poder de conhecimento estavam unidas outras faculdades: o apetite sensitivo e a potência locomotiva. Essas três manifestações seriam típicas da vida sensitiva.
Nesse primeiro método de classificação, Aristóteles ordena de maneira sistemática os seres vivos, atribuindo vários graus de perfeição na escala dos seres vivos. Embora distintos, cada grau superior inclui virtualmente os inferiores, de modo semelhante ao que ocorre nas figuras geométricas. Por exemplo: o quadrilátero inclui o triângulo, porque pode dividir-se em dois triângulos iguais; mas o triângulo pode existir sem o quadrilátero.
Assim sendo, Aristóteles distribuiu os seres vivos em quatro graus hierárquicos de perfeição, iniciando pelo mais imperfeito:
1°) Plantas, que teriam alma vegetativa ou nutritiva, responsável pelas funções de assimilação e reprodução, mas não possibilitando a sensibilidade e a mobilidade local.
2°) Animais Imperfeitos, que teriam alma sensitiva, mas não teriam o movimento progressivo.
3°) Animais Perfeitos, que teriam alma sensitiva, e, além disso, apetite, fantasia, memória e faculdade locomotora para transladar-se de um lugar a outro.
4°) O Homem marcaria o grau supremo da hierarquia dos seres vivos terrestres e sintetizaria, em si, todas as perfeições dos seres anteriores. Ele se distinguiria e superaria a todos por possuir a alma perfeita, dotada de entendimento e vontade, capaz de ciência e deliberação.
Esses princípios aristotélicos foram mantidos praticamente inquestionáveis até a Renascença, inclusive incorporando à medicina o conceito de vida vegetativa.
Esta explicação histórica possibilita compreendermos o porquê da associação entre o Reino Plantae e a designação de Reino Vegetal.
Entretanto, tal concepção de passividade frente às interferências ambientais atribuída às plantas, vem sendo drasticamente modificada nestes últimos 20 anos, período em que se intensificam os estudos acerca da sinalização química que ocorre entre plantas e insetos, entre plantas da mesma espécie e plantas de espécies distintas. Um exemplo bem conhecido de sinalização é a emissão de odores pelas plantas, para a atração de insetos polinizadores.
Sempre me chamou a atenção o comportamento anti-aristotélico da Celinha, uma amiga dos tempos de banco de escola. Ela era conhecida por seus retiros temporários, na fronteira extrema de Minas com as terras ainda paulistas. Além de diversos fatos exóticos, o que me atiçava à curiosidade era o fato dela conversar com plantas. Sim, ela inclusive tinha um grande amigo, um centenário jequitibá, com o qual ela trocava experiências de vida, nos finais de tarde das Gerais. Ou, como ela mesma se referia, “levava um lero”.
Foi de sobressalto que li na New Scientist de 01 de setembro sobre os resultados do pesquisador Mi-Jeong Jeong e sua equipe, do National Institute of Agricultural Biotechnology em Suwon, Korea. Publicados originalmente no último volume do periódico holandês Molecular Breeding.
Estes pesquisadores detectaram que alguns genes da planta do arroz, poderiam ser ativados ou desativados através de ondas sonoras. Tal fato não foi surpresa para Martin Parry, do Institute for Arable Crops Research-Rothamsted, em Harpenden, UK. Este inglês, que também trabalha com o gene sbcS, confirmou que este gene fica mais ativo a 125 e 250 hertz e menos ativo quando submetido a uma freqüência de 50 hertz. Ele também acha pouco viável que fazendeiros possam regular a produção vegetal através de gritos e outras ordens de comando nas plantações, o que chegou a ser postulado pelos coreanos. Sons naturais como o de ventos, tempestades e mesmo animais, poderiam interferir nesses comandos.
Frente a estes avanços da biotecnologia, agora menos cético sobre seu comportamento, gostaria de perguntar a minha amiga Celinha: o que o seu velho amigo jequitibá está achando sobre tudo isso?
(Acesse o preview do artigo no site da New Scientist)
:: Hércules Menezes ::
1 comment 3 Setembro 2007
Mais que simples palavras
De 13 a 19 de agosto, o Rio de Janeiro sediou os III Jogos Parapan-americanos. Pela primeira vez, uma edição dos jogos foi realizada na mesma cidade e na seqüência dos Jogos Pan-americanos.
Por ocasião dos jogos, que reuniram pessoas com deficiência disputando diversas modalidades esportivas, a questão da deficiência ganhou grande visibilidade na mídia, o que contribui significativamente para a causa. Contudo, muitas vezes os jornalistas envolvidos na divulgação da temática em geral, e dos jogos em específico, cometiam deslizes no que se refere à terminologia sobre deficiência.
Deslizes de terminologia são bobagem? Questões secundárias? Nada disso: a construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva passa também pela questão do vocabulário. Através da linguagem expressamos muitas vezes nossos preconceitos, ainda que velados. O que pode parecer apenas uma questão secundária é, na verdade, uma das formas de demonstrar a discriminação.
Em cada época utilizam-se termos cujo significado é compatível com os valores vigentes na sociedade. Por isso, se pretendemos construir uma sociedade inclusiva, devemos usar o vocabulário correspondente a essa forma de encarar a deficiência. Vamos conhecer então um pouco sobre como foi a evolução do vocabulário referente à deficiência.
As pessoas com deficiência já foram chamadas por diversos nomes. Durante muitos séculos, essas pessoas eram chamadas de “inválidas”, o que demonstrava que eram encaradas pela sociedade como inúteis, um peso morto e um fardo sem nenhum valor. Até meados do século XX, utilizava-se muito a expressão “incapacitados” para se referir às pessoas com deficiência. Ainda persistia muito da idéia de pouco valor, ainda que se reconhecesse que a pessoa poderia ter alguma capacidade, ainda que reduzida. Entre as décadas de 60 e 80, os termos “defeituosos”, “deficientes” e “excepcionais” estavam muito em voga, já que focalizam as deficiências em si sem reforçarem o que as pessoas não conseguiam fazer como a maioria.
Já na década de 80, “pessoas deficientes” passou a ser a expressão mais utilizada. A palavra deficiente passou a ser adjetivo e foi atribuído o valor de “pessoa” àqueles que tinham deficiência, igualando-os em direitos e dignidade à maioria dos membros da sociedade, o que contribuiu muito para a melhoria da imagem dessas pessoas. Por volta de 1988, alguns líderes de organizações de pessoas com deficiência passaram a contestar o termo “pessoa deficiente”, alegando que ele sinalizava que a pessoa interia era deficiente. O termo que passou a ser utilizado nos países de língua portuguesa foi “pessoas portadoras de deficiência” ou apenas “portadores de deficiência”.
Na década de 90 passou-se a usar a expressão “pessoas com necessidades especiais” ou “portadoras de necessidades especiais”. A idéia era substituir a palavra deficiência por outra menos pejorativa. Com o tempo, a expressão “pessoa com necessidades especiais” passou a designar também outras pessoas, como as com problemas de aprendizado ou superdotadas. Um eufemismo da expressão anterior, a expressão “pessoas especiais”, apareceu logo em seguida.
Por fim, surgiu, ainda na década de 90, a nomenclatura “pessoas com deficiência”, que passa a ser o termo preferido por um número cada vez maior de adeptos, dentre eles grande parte das próprias pessoas com deficiência. Os valores agregados à nomenclatura são o empoderamento, que é o uso do poder de cada pessoa para fazer escolhas, tomar decisões e assumir o controle de sua vida, e a inclusão. O termo não esconde ou camufla a deficiência, valoriza as diferenças e as necessidades decorrentes da deficiência e combate neologismos que tentam diluir as diferenças.
Para Romeu Kazumi Sassaki, consultor de inclusão, especialista em reabilitação de pessoas com deficiência e um dos maiores estudiosos das terminologias sobre deficiência no Brasil, a tendência é que se deixe de usar a palavra “portadora” para designar as pessoas com deficiência, já que elas não portam sua deficiência, uma vez que a deficiência é uma condição que faz parte da vida da pessoa. Não podemos dizer que a pessoa porta uma deficiência como não podemos dizer que ela porta olhos verdes ou pele morena. Uma pessoa só porta algo quando o faz por opção própria e ocasionalmente. Por isso, segundo ele, hoje, o consenso é de que se deve adotar a expressão “pessoas com deficiência” em todas as manifestações orais e escritas em todas as partes do mundo.
Sassaki também sinaliza outras expressões e palavras que devem ser evitas. Por exemplo, não se deve chamar alguém de ceguinho porque isso denota que o cego não é uma pessoa completa. O correto, nesse caso, é falar em cego, pessoa cega, pessoa com deficiência visual ou deficiente visual.
:: Marina Mezzacappa ::
Add comment 3 Setembro 2007
Nova edição da Reforma da Natureza
“…as laranjas, por exemplo: seria ótimo se pudessem vir já descascadas….”
Esta frase, extraída da obra: A Reforma da Natureza, de Monteiro Lobato, espelha uma antiga fantasia humana de se reconstruir a natureza, de forma a adequá-la aos nossos desejos.
Hoje em dia, vislumbrando a possibilidade de se patentear os produtos gerados por Biotecnologia, não apenas grandes conglomerados de indústrias químicas, mas também médias e pequenas empresas, montadas por uma legião cada vez maior de pesquisadores em associação com profissionais de marketing, estão cada vez mais apostando e, principalmente ganhando, nesta promissora fatia de mercado da economia mundial.
Na área de melhoramento vegetal, a necessidade de se produzir alimento para uma população humana, que vem crescendo de maneira assustadora e alarmante, tem abocanhado investimentos bilionários. Não apenas o incremento nos teores de vitaminas, carboidratos e proteínas são preocupações dos pesquisadores desta área. Paradoxalmente, apesar do desenvolvimento tecnológico ocorrido na agricultura, durante as últimas décadas, as perdas causadas por pragas biológicas na produção mundial de vegetais, são ainda da ordem de 50%. Estas pragas incluem os organismos fitófagos (comedores de vegetais) como certos insetos e nemátodos, as doenças causadas por diversos vírus, bactérias e fungos, além da competição arrasadora com as ervas daninhas.
Uma estratégia que vem sendo desenvolvida desde a década de 1980, visando minimizar estas perdas, consiste em construir plantas transgênicas. Estas plantas são produzidas a partir de plantas normais, nas quais são introduzidos novos genes. Por exemplo, uma determinada bactéria, que pode infectar o tomateiro, matando-o ou mesmo diminuindo a sua produção, é sensível a um determinado antibiótico. Se nós sintetizarmos o gene deste antibiótico (informação para se produzir este antibiótico contida em uma molécula de DNA) e introduzi-lo neste tomateiro, esta planta passará agora a produzir este antibiótico, que por sua vez matará as bactérias que tentarem infectá-lo. Este tomateiro se denominará agora um transgênico, pois um gene estranho lhe foi transplantado.
Podemos construir também um tomateiro que contenha um gene responsável pela produção de um determinado inseticida, impedindo assim, que seja atacado por um inseto. Podemos inclusive produzir um tomateiro que contenha um gene capaz de degradar herbicidas, possibilitando, desta maneira, que os agricultores possam acrescentar ao solo das plantações, grandes quantidades de herbicidas, suficientes para matar todas as ervas daninhas, sem interferir no desenvolvimento dos tomateiros.
Estas centenas de novas indústrias de biotecnologia, espalhadas pelo mundo, constroem e vendem no mercado, genes e organismos por encomenda, de tal forma que, podemos construir plantas transgênicas contendo diversos novos genes, protegendo-as assim, contra diversas pragas biológicas ao mesmo tempo.
Evidentemente que toda esta tecnologia também tem seu lado não desejável.
Paralelamente, e felizmente, também vem aumentando o número de cientistas preocupados com danos que estas plantas transgênicas podem causar ao meio ambiente e mesmo diretamente ao próprio homem. O impacto que estas novas plantações podem acarretar ao ambiente circunvizinho, pode ter conseqüências desastrosas. Mesmo às populações humanas atuais e futuras que consumirem estes alimentos enriquecidos com antibióticos e inseticidas.
Preocupados com aspectos “não desejáveis”, um grupo de pesquisadores do Instituto de Biologia de Aachen na Alemanha, liderados por Andréas Voss, construíram plantas transgênicas capazes de produzir anticorpos (proteínas denominadas de imunoglobulinas, que nosso organismo produz contra agentes estranhos, como por exemplo, após nos vacinarmos contra o vírus da varíola).
Para tanto, estes pesquisadores injetaram em camundongo o vírus TMV, que normalmente ataca e destrói a planta de tabaco. Este camundongo, assim imunizado, passou a produzir anticorpos direcionados contra o vírus TMV. Em seguida, isolaram o gene responsável pela produção destes anticorpos e transferiram para uma planta de tabaco. Esta planta transgênica passou agora a produzir anticorpos de camundongo, que impediram que o vírus TMV a infectasse, graças à presença destes “planticorpos” em suas células.
A molécula de imunoglobulina, que naturalmente é produzida nos animais vertebrados, possui duas regiões: uma que se liga ao agente infectante e outra que desencadeia uma série de reações paralelas de defesa no organismo. Entretanto, este último pedaço, é também responsável pelo desencadeamento de reações alérgicas, que podem acometer o animal que receba esta molécula.
É o caso da chamada Doença do Soro, que pode acometer as pessoas que por diversos motivos, necessitem receber soros imunes e acabam desenvolvendo diversas reações colaterais adversas.
Pesquisadores de diferentes partes do mundo conseguiram em um curto espaço de tempo, através de refinadíssimo processo de cirurgia molecular, remover do gene da imunoglobulina o pedaço responsável por estas reações não desejáveis. De tal forma que, este novo gene de imunoglobulina, sendo introduzido em um organismo, passou a produzir uma molécula de anticorpo com propriedade de neutralizar a proliferação de diversos microorganismos, e mesmo diversos tipos de câncer, sem ocasionar problemas colaterais.
Esta nova molécula de anticorpo, denominada de scFv (single-chain fragment-variable), está sendo considerado como a mais nova arma de engenharia genética, não só para o combate de microorganismos patogênicos em plantas, mas também em animais, inclusive no homem.
Nos últimos meses, estes novos profissionais de “designer molecular”, literalmente trabalhando com engenharia de proteínas, vêm publicando resultados de suas pesquisas, nas quais estes scFv são empregados experimentalmente na terapia de diversos tumores e viroses humanas como linfomas, gliomas, carcinomas de ovário, vírus da raiva, da Hepatite B e malária.
A possibilidade de se acoplar a estes minianticorpos, toxinas e outras substâncias destruidoras de células, construindo assim mísseis moleculares, capazes de atingir células tumorais e microorganismos patogênicos, com uma perfeita precisão, abriu uma nova e promissora estratégia para o combate ao vírus HIV. Estes minianticorpos, ao contrário dos anticorpos naturais, podem penetrar no interior das células infectadas e atingir o vírus ainda na sua fase de reprodução.
Atualmente, a produção destes anticorpos em vegetais, para fins de terapia humana, está sendo direcionada para a obtenção em grande escala, ao nível de órgãos de reserva das plantas. Assim, eles poderão ser extraídos em grandes quantidades, com a vantagem de serem isentos do risco de contaminantes virais patogênicos ao homem, pois os vírus que naturalmente ocorrem em plantas, são inócuos ao homem.
Possivelmente, se Monteiro Lobato escrevesse nos dias de hoje a sua Reforma da Natureza, substituiria a frase inicial por:
“…as laranjas, por exemplo: seria ótimo se pudessem vir já com anticorpos contra a gripe, além de descascadas….”
:: Hércules Menezes ::
3 comments 2 Setembro 2007
