iPhone: intensidade do marketing não garante qualidade do produto

24 Agosto 2007

No dia 29 de junho de 2007 foi lançado o iPhone, meses depois de uma das maiores campanhas de marketing da atualidade. Este pequeno notável pode ser definido como uma central multitarefa: telefone, navegador internet, gerenciamento de e-mails, iPod, câmera digital, tecnologia wi-fi e bluetooth. Possui também potencial quase infinito para executar diversos tipos de programas, os chamados widgets – calendário, calculadora, bloco de notas, jogos, etc.  A imagem criada sobre a utilidade do produto foi tão explorada que várias paródias surgiram na rede (vide).

Tanto o público como a mídia já estavam de olho no iPhone mesmo antes do lançamento. Em janeiro deste ano Steve Jobs, cacique da Apple, chamava o iPhone de “o melhor iPod já produzido”. A expectativa sobre o aparelho era tão grande que até Walter Mossberg, do The Wall Street Journal, um dos críticos mais respeitados e temidos do planeta para assuntos de tecnologia, fez observações extremamente positivas sobre o pequeno caçula da Apple.

 

Jobs e seu iPhone

 

Quando o iPhone foi lançado, as ações da Apple Inc. (NASDAQ: AAPL) estavam em $121, o valor da share (quota). O mais incrível é que, mesmo antes do anúncio do produto, as ações já estavam elevadas em 60%. Um ganho ótimo em curto prazo e já se calcula aumento de 14% nas suas ações desde o dia do lançamento do iPhone até agora.

Até o final deste ano, é muito provável que a AAPL bata $160 ou mais, pois as vendas continuam a subir em quase todos os seus produtos de consumo, além do desempenho fantástico de suas lojas de varejo. Estima-se que a Apple tenha um retorno de 30% apenas em 2007, o que é uma boa soma no ramo de eletrônicos.

 E o Brasil, como fica? 

Como o iPhone também é um telefone celular, sua chegada ao Brasil depende da aprovação da Anatel e de acordos com as operadoras telefônicas. Nos EUA, ele será oferecido por uma companhia apenas, a Cingular. Portanto, não será possível utilizar o aparelho comprado lá fora aqui no Brasil, como muitos usuários fazem com o iPod.

É provável que o aparelho demore ou mesmo não venha a se popularizar no Brasil, já que ficará muito caro por aqui. A propaganda chama a atenção dos usuários, mas é preciso ver que já existem no mercado local aparelhos com funções semelhantes por um preço mais acessível.

Nos EUA, a novidade custará US$ 499 (versão de 4 GB) e US$ 599 (8 GB). Quando chegar ao Brasil, seu preço será tão alto que provavelmente limitará sua expansão. Seria preciso um acordo da Apple com as operadoras de telefonia brasileiras para reduzir o seu preço. Assim, o acesso ficaria mais fácil e sua compra, menos onerosa. Mas será que estamos perdendo alguma coisa com esse atraso?

 Pós febre de lançamento 

            Após alguns meses do lançamento e depois da ressaca das campanhas monstruosas, podemos fazer um breve levantamento deste pequeno faz-tudo da Apple.

            Um dos aspectos iniciais mais marcantes, mas que foi ocultado pelo merchandising da empresa, é o fato de que o iPhone é muito semelhante a smartphones já existentes no mercado, ou seja, o aparelho não é, de fato, uma novidade. Inúmeros smartphones já vinham com navegadores mais avançados, como o Opera. Embora outros telefones não tenham controles completamente virtuais, alguns, como o Helio Ocean, têm múltiplos teclados, recurso que o iPhone não dispõe.

Alguns smartphones já excediam os recursos que o iPhone apresentou em seu lançamento. Muitos já tinham capacidade para telefonia celular de terceira geração (3G), permitindo taxas de transferência de dados significativamente mais rápidas. Outros smartphones e micros de mão também podem rodar aplicações desenvolvidas por terceiros, algumas das quais têm funções bem especializadas, mas a Apple, insistindo no contrato de monopólio, planejou permitir apenas aplicativos que funcionam dentro do navegador Safári. O aparelho não roda programas de outras empresas, impedindo o uso de arquivos do Office da Microsoft, por exemplo. Isso porque a Apple quer manter o controle dos aspectos do produto, o que pode significar uma limitação e tanto no ramo da Tecnologia da Informação.

Além destes aspectos técnicos, não está claro se os recursos do iPhone compensam o seu preço. O argumento da Apple é que seu aparelho atuaria como três dispositivos distintos – telefone, iPod e navegador de Internet – que custariam ao menos US$ 899 se comprados separadamente. Contudo, celulares e smartphones são mais baratos que o iPhone e muitos já possuem esse conjunto. O iPhone também requer um contrato de 2 anos com a AT&T, conhecido como Cingular, limitando o usuário em suas escolhas de prestadoras.

Em razão das novas percepções e críticas sobre o iPhone, previsões atuais de analistas sobre o sucesso do aparelho são plurais. Sua presente prática de mercado e a questão do monopólio podem ser obstáculos para sua difusão, qualidade e custo-benefício não se equiparam à campanha grandiosa. Ou a Apple flexibiliza o preço e  a compatibilidade do iPhone, ou este corre o risco de ser apenas um smartphone de grife concorrendo no vasto mercado das bugigangas de comunicação.

 

:: André Garcia ::

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